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domingo, 26 de dezembro de 2010

ARS LITTERARIA (30): A visita do Menino, segundo Rui Zink

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The enlightened boy (2010) / DZ


A visita do menino

Todos os anos neste dia acontece o mesmo. A visita do miúdo. É assim desde há uns cinco ou seis anos, não sei porquê. Quis saber, agora já não quero. Apenas aceito e agradeço mentalmente a dádiva concedida. A minha mulher diz que estou a ficar xexé. Eu discordo. Há coisas que uma pessoa sabe que são verdade mesmo com provas em contrário. Os factos não têm sempre razão. Se tivessem sempre razão seriam razoáveis. Não são. Quase nunca são, pois não?

O miúdo chega de manhã, ainda estamos na cama. Toca à campainha com insistência, a minha mulher irrita-se: “Quem será a esta hora? Não sabem que hoje ao menos uma pessoa tem direito a dormir mais um bocado?” Mas eu, já prevenido, vou de mansinho abrir a porta. E não é que o malandro do miúdo me prega sempre a mesma esparrela? Olho para a frente quando devia era olhar para baixo. Antes que eu dê por isso já ele se esgueirou e, com todo o desplante, dou com ele todo repimpado no sofá. Da primeira vez tive um sobressalto. Agora já me habituei e só se ele não aparecesse é que ficaria desapontado.

Estão a ouvir a campainha? Aí vem ele. A minha mulher resmunga: “Ó homem, para que é que te estás a levantar? Fica mas é sossegado.” Sossegado, uma ova. Às vezes esta mulher tira-me do sério. Sossegado? Terei muito tempo para estar sossegado quando estiver morto.

Abro a porta e ele entra. Parece mais novo que o ano passado. É natural. Já o ano passado parecia mais novo que no ano anterior. O mesmo ritual: esgueira-se-me por baixo do braço, como um grilo, e senta-se no sofá. Acende a televisão com o comando, inspecciona os canais: os desenhos animados, as notícias, a vida selvagem, o futebol, as séries, os concursos. A seguir desliga: “Eu já sabia, não dá nada de jeito. Para que servem tantos canais se não há nada de jeito, pá?

Da primeira vez protestei a sua monumental lata, e estranhei que ele ficasse mais tempo a ver as notícias que os desenhos animados. Afinal, um miúdo é um miúdo. Só que este miúdo sabe-a toda.

Isto está mau, pá. Já pensaste em quem vais votar? Ou és daqueles que já nem votam?

As crianças têm bicho-carpinteiro e cansam-se facilmente. Este menino passa rapidamente da política a assuntos mais sérios: “Queres jogar umas damas?

Da primeira vez que ele apareceu, não pudemos jogar. O que posso dizer? Desde pequeno que eu não jogava damas! E no entanto era uma das minhas melhores recordações de infância, jogar às damas com o meu pai. Mas agora já estou prevenido. E vou buscar o tabuleiro.

Após um par de partidas (que me deixa ganhar) ele faz um ar cúmplice:
Ouve lá, pá, não tens nada que se beba?

Hoje, também sei ser matreiro, surpreendo-o: digo que sim e dou-lhe um copo de sumo. Ele torce o nariz: “Eu disse uma coisa que se beba, pá.

Sorrio e lá desencanto uma garrafa, já aberta, de tinto alentejano. Não dos mais caros, mas Portugal tem isso de bom: com ou sem crise, há sempre vinho de qualidade a preços acessíveis. Ou não fôssemos nós a terra do sol grátis, do clima ameno, dos solos férteis. Até ver, claro. Mas tudo na vida é até ver. Depois, quando já não houver nada para ver, despedimo-nos. Como eu e o menino.

Ele leva com gosto o copo aos lábios. Sei muito bem que não se deve dar vinho às crianças. Só que este miúdo é especial. Nos últimos tempos, ele já não podia beber. A minha mulher era a mais severa: “Não lhe dês vinho, o médico proibiu-o terminantemente.” Eu ainda lhe passava um ou outro copo às escondidas, até que a tarefa clandestina se tornou impossível.

Ele devolve-me o copo e, nesse momento, os nossos dedos tocam-se. É bom. Uma pessoa poderia pensar que os dedos dele é que estariam frios. Não. Estão quentes. Os meus é que estão frios, o que é normal, agora sou eu quem tem problemas de circulação. Ele? Ele é um miúdo.

Tens tomado conta de ti, pá?”, pergunta. “Tens andado a pé? Olha que é importante andares a pé. É a melhor ginástica, pá.
Eu sorrio. Um miúdo a dar-me conselhos. Mas, claro, ele não é apenas um miúdo.

Da primeira vez não o reconheci. Como podia? Nunca tinha visto fotos dele em criança. E depois de perceber que ele não era uma ilusão, que era real, ainda perguntei: “É-és Jesus?”
Ele riu: “Achas-me com cara de treinador do Benfica, pá?

Na altura não percebi a piada, porque o treinador do Benfica ainda não tinha esse nome. Imaginem o meu baque quando a premonição se tornou realidade. (O meu baque este ano é pior: aquilo este ano nem com Jesus vai ao sítio.)

O meu pai era da geração do pá, pá para ali, pá para acolá. Todo o século passado português está contido nessa palavra que nem palavra é: pá. Dizem que é diminutivo (ou melhor, encolhitivo) de “rapaz”. Não sei. Pode também ser uma variante de Pã, o bom traquinas.

Por que me aparece o meu pai, precisamente neste dia, em formato menino e não adulto? Levei tempo, mas percebi. Acho que percebi. Afinal de contas, como deveria ele aparecer-me? Qual a idade certa para um pai voltar a visitar-nos uma vez por ano, antes que a família (primos, sobrinhos, netos) entre em balbúrdia por causa do almoço de Natal?

As nossas conversas nunca duram muito, como já não duravam muito enquanto ele estava vivo. Quanto muito, está menos chato. Mas suponho que é isso que acontece com a idade. Eu também estou mais chato agora do que antigamente.
Sei que não fui um grande pai, pá.
“Não foi dos piores.”
Vou tomar isso como um elogio, pá.
“Porque nos deixou?”

O menino meu pai fica sério: “Ó pá, eu não… O que te posso dizer? A vida é curta e quase mal sobra tempo para fazer asneiras, quanto mais as coisas certas.
“Agora perdeu-me.”
Estou a tentar dizer uma piada, pá.
“Sabe que nunca gostei muito das suas piadas?”
Tu é que nunca tiveste grande sentido de humor.
Ficamos a olhar um para o outro, até que ele diz:
Era uma piada, pá. Tu para meu filho nem te safaste mal.

Sorrimos. Eu, o adulto, ele, o garoto. Olha para as horas no relógio de pulso. Que ele não tenha um relógio no pulso é pormenor sem importância.
Bom, tenho de ir. Cuida-te, pá.
“Tu também, pai. Obrigado pela visita.”

Ele abre a porta e, antes de a fechar, piscando-me o olho, carrega no botão da campainha. De propósito, só para sarrazinar a minha mulher. Acho que ainda não lhe perdoou ter-se posto do lado dos médicos quanto à proibição do beber um copito.

Calculo o tempo que leva ao menino a descer as escadas. E, certo como um carteiro, lá vem novo toque à campainha, desta vez mais estridente e contínuo, mesmo só para chatear.

A minha mulher entra na sala, esgrouviada:
Que barulho foi esse? Quem tocou agora à campainha?
“Nada”, digo. “Deve ter sido algum miúdo.”

Rui Zink
in: Jornal de Notícias
(25 de Dezembro de 2010)
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quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

ARS LITTERARIA (29): Um conto de Natal, por Casp

-[Illumi] Natus Philosophorum, David Zink fecit MMX

Conto de natal, ou talvez não...
Na minha meninice quando ainda não pensava nem contestava, acreditei no natal, no pai natal, na festa da família e mais outras patranhas; recordo-me que, estando hospedado num orfanato com mais duzentos clientes, num desses natais fui considerado o mais bem comportado e como paga deram-me o melhor brinquedo que se encontrava no pinheiro; eu o melhor do ano? Eu que até tinha chumbado a 4ª classe? Eu que era um demónio quando me chateavam?

Achei aquilo tão estranho que mal chegado ao Quadrado (local aonde brincávamos), cá vai disto e o saxofone foi atirado contra a parede; atrás do saxo voaram carros, carrinhos e carretas contra os muros, foi assim comemorado esse natal e os seguintes levaram o mesmo caminho, mal ali chegávamos era tudo destruído, e que ninguém tentasse ficar com o brinquedo pois era-lhe retirado à força.

Acto de selvajaria? Talvez! Mas também talvez esta coisa de nos sentirmos sós no meio de tantos também devia pesar sem o sabermos, entendamos a coisa como um escape pois nem nos sentíamos mal depois da acção.

Mais tarde descobri porque me deram o saxo.

A Tia Rosa, cozinheira, chamou-me e disse-me, tenho um filho que tem o teu nome, Carlos Alberto da Silva Pedro, também fez exame da 4.ª classe um ou dois dias depois de ti, o chumbo era para ele, mas deixa estar tu és interno, ele não e tem de ir trabalhar para me ajudar. Ela o disse ela o sabia.

Eu realmente estranhei; na véspera do exame e como preparação psicológica a regente prometeu uma carga de porrada a quem trouxesse uma raposa, e não é que ela mandando-me chamar em lugar da prometida carga me disse que para o ano seria melhor!!! Revendo o exame até me correu bem; já escrevia mais ou menos bem, era bom em redacções e ditados, em História calhou-me o Viriato e o Sertório, na Geografia safei-me com os rios que nasciam em Espanha, na Geometria os ângulos, na Gramática as preposições que disse todas, nas Ciências falei dos ossos da cabeça; a minha professora estranhou o chumbo e por isso não levei porrada e deram-me o saxo que gentilmente arrumei contra a parede, o meu instinto de criança dizia-me que algo estava errado.

Muitos natais passei na praia de Santo Amaro de Oeiras, foram giros; era assim, comprava uma garrafa e um bolo-rei, chegado à praia acendia uma fogueira e passado pouco tempo aparecia malta conhecida e desconhecida e confraternizávamos até às quinhentas. Às vezes vou passar a casa de amigos mas eles que me perdoem, não gosto muito pois a tristeza não me deixa, com familiares a tristeza ainda é maior.
Hoje encaro o natal como um 1º de Abril ou como o Carnaval; o consumismo natalício é um desperdício, e que sentido faz um tipo ficar sem dinheiro até Janeiro!? Há bastantes anos que não dou nem quero prendas, de comer o costume na véspera e no dia, e anseio que as canções natalícias que começam a moer-me o juízo nos fins de Outubro acabem.

Quem não gosta não estraga, quem está longe da terra entendo que se encontrem, só nunca entendi porque morre tanta gente no caminho, quem está perto não necessita de dia especial para se encontrar, qualquer dia é dia, sendo que considero o dia do meu nascimento, 2 de Janeiro o mais importante; nesse dia ando mesmo feliz e agradeço aos meus pais que não me conheceram nem os conheci o meu ocasional nascimento, ou será que julgavam eu ser filho de Marcianos?

Nov.2010Casp
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domingo, 12 de julho de 2009

ARS LITTERARIA (19): A visita de Deus, narrada por Pedro Sevylla de Juana

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God's visitation (2009) / David Zink



A visita de Deus


Na vasta extensão rodeada de terreno arborizado, sedosa pradaria dividida pelo curso em arco de um regato bem nutrido, ao princípio do Outono, quando a Lua perseguia sua plenitude circular, enigmático e aprazível apareceu o Ente. O velho Liparus Glabirostris, da família dos Curculiónidas, profundo pensador e professor exímio, receou sempre. Desconfiava do suposto deus inclusive na época de general arroubamento. Não era para menos, a estranha aparência -tamanho e forma- ajudava em alto grau despertando braçados de suspeita.

O Ser, delimitado por linhas suaves e planos carentes de ângulos, aceitava as olhadas interrogantes sem suspender a emissão de sons compassados, sugestivos até para ouvidos insensíveis à cadência ordenada. No seu interior impenetrável abrigava, sem assomo de dúvida, algum tipo de vida afastada da convencional. Livre de fome e sede, em harmonia com a agradável temperatura ambiente, atuava como qualquer recém-nascido satisfeito, ainda que desprovido do gracioso bracejo e do gesto encantador. Permanecia no próprio lugar de sua aparição, expressava-se utilizando um complexo linguagem de signos visuais e acústicos, e não manifestava dependência alguma do exterior. Resulta compreensível que centenas de conjeturas se tecessem ao redor de sua privativa natureza.

O velho Liparus pôde reconhecer nele determinadas qualidades da condição divina. Saltava à vista que era alheio a tudo o conhecido. Certo, diferia sua essência das peculiaridades primordiais dos três reinos; não parecia pedra, não parecia planta, não parecia animal. O estado de repouso em que se encontrava imerso devia de ser transitório, pois tinha chegado até ali desde algum lugar tão remoto que não lhe precedeu a notícia de sua existência. A aptidão para trasladar-se ao ditado do desejo lhe proporcionava uma independência amplíssima: rasgo que distingue aos seres superiores. Único, autónomo e inexplicável: semelhantes atributos constituíam os fios que bordavam a perfeição de sua índole. Carecia, pelo contrário, da primeira das qualidades que os deuses exibem: a capacidade sem limites de influir no curso dos sucessos, geradora de prodígios que ressaltam uma trajetória extraordinária. Atitude oposta à de um demiurgo amoroso de sua obra, aparecia, somada, uma inescusável despreocupação pela formosura da verde floresta, pelos inverosímeis raios de sol que filtrava, pelo rumor harmonioso da água ao acometer os meandros e estreitezas, e até pelos curiosos que lhe cercavam com ânimo investigador. Nesse ponto exato, equidistante do sim e do não, impossibilitada para desprender-se, ancorava Liparus sua dúvida.

Talvez fora só um clarão da mobilidade potencial, mas a agitação se ensenhoreava do interior. O que podia ser tomado pelo rosto, superfície circular de um cilindro achatado, espelho do sensível coração, efetuava estranhos trejeitos a cada instante. Os reflexivos pesquisadores, encabeçados por Calathus Melanocephalus, pertencente à família dos Carabídeos, e seu mais direto colaborador, Agonun Dorsale, primo seu; constataram que mudava a forma seguindo um processo repetido a cada dia. Tomando o anoitecer como ponto de referência, a metamorfose reproduzia seus passos, um após outro, de crepúsculo a crepúsculo; reiteração, método.

“Prodígios? Consegue ser portento suficiente a comoção ocasionada pela sua vinda até nos mais céticos”: argumentavam os partidários, dirigidos pelo eleito coordenador de famílias Prionus Coriarius, o maior dos Longicórneos: “Negligência ante a criação? Veio para permanecer a nosso lado; eis aí o grande exemplo de carinho que necessitava este mundo egoísta”. “Sim, sua existência é monótona e repetitiva, mas, feitos a sua imagem e semelhança, nossa própria existência é repetitiva e monótona. Nos deslocamos perseguindo o alimento, nos agita o desejo de copular, corremos para atacar ou fugir. A Divindade repousa porque se basta a si mesma: nada lhe falta e a nada teme”.

Os religiosos vincularam com esse argumento, mais que com nenhum outro, o meritório modo de alinhar as condutas pessoais trás a forma de ser atribuída à Divindade. “Aquilatemos o processo de nutrição rejeitando a gula. Limitemos a cópula às exclusivas exigências da propagação da espécie. Abracemos nossos inimigos. Só dessa maneira seremos capazes de amansar nossa agitação culpável. E sentenciaram: “A calma é o bem e o tumulto o mal; na redução das necessidades apoia-se a virtude”.

Surpreende a instabilidade das convicções generalizadas na sociedade: os Escolítidos, cavadores de galerias corticais - até então tachados de simples e parcimoniosos - passaram a ser percebidos como coerentes e equilibrados. “Viver para ver”: pensavam os suspicazes.


O Círculo de Teólogos, por encargo do estamento crente, soldou entre si várias cavilações formando um verdadeiro corpo de doutrina, dogma de obrigado conhecimento e imediata difusão. Avançava o credo pela senda racional até o limite de suas possibilidades, momento em que fazia uso da fé. “A Divindade existe desde antes dos inícios, porque é o início; e seguirá quando tudo se extinga, porque o conhecido e o suspeitado têm nela sua raiz e seu sepulcro. A Divindade não necessita engendrar descendentes, porque sendo única ao tempo é eterna”.


Dytiscus Latissimus, da família dos Ditíscidos, aparecia em público luzindo a casula amarela e preta de aparência solene, ladeado por seus acólitos, dois luminosos Lampírides. Partindo das verdades teológicas propagadas há pouco, tinha fundado o Imobilismo Expectante, irmandade integrada por um crescente número de adeptos. Subido a qualquer saliência, e dono de todas as respostas, perguntava: “Que razão teve a Divindade para tomar corpo e vir com nós? Mistério. Mistério que as mentes correntes como as nossas não podem compreender. Veio, e isso deve encher-nos de orgulho e regozijo; quis servir-nos de guia e exemplo, e isso deve bastar-nos. Mas, cuidado, poderia ir-se; devemos cumprir, num instante e até o último pormenor, os ditados de seu temperamento. Me encarregarei de interpretar e divulgar suas mensagens com a assistência dos discípulos mais comprometidos. Eles e eu renunciamos desde este mesmo momento ao acasalamento, e nossa mobilidade roçará o limite da estática. Os irmãos na fé construirão uma Ara onde os fiéis possam adorar à Divindade e pedir-lhe dons. Além disso contribuirão a nosso parco sustento”.

Enquanto tudo o dito sucedia na pastagem que bordeia o arroio, o extravagante Ser continuava sua atividade mínima. A deidade, uma cabeça redonda e plana da qual surgiam dois grandes apêndices desiguais, amorosos braços dispostos a fechar-se ao redor de qualquer eleito, apenas dava sinais de vida. A estranha entidade encarnada dessa guisa, carente de tronco e de extremidades traseiras, insensível ao interesse suscitado no seu ambiente, continuava a sistemática reforma dos rasgos faciais e a entrecortada emissão de sons, audíveis a considerável distância.

Sem estorvos dignos de ser tidos em conta, Carabus Coriaceus, caçador astuto e guerreiro de tenacidade reconhecida, tomou o mando dos soldados em uma cerimónia memorável. Ao pé do altar - argila ainda húmida recoberta de pequenas pedras de cores - uma charanga formada por Gryllus Campestris e Oecanthus Pellucens, músicos estrangeiros, batia os élitros em homenagem à Divindade. Animosa, atacava com brio marchas capazes de alertar aos casacas verdes, guarda composta por Lytta Vesicatoria; e aos casacas roxas, escolta de Meloë Violaceus. Ao seu compasso, a cohorte de ferozes machos Lucanus Cervus, desfilava em estado de excitação combativa. Chefes, soldados e uma boa parte da população, viam na Divindade o grande caudilho que tornaria respeitado e temido à ordem Coleóptero; orgulhoso da complexa diversidade das famílias que o integram, das poderosas mandíbulas de seus indivíduos, da beleza das asas, da funcionalidade de antenas e escudo e do notável modo de vida conseguido. Por último se apresentava a ocasião de submeter aos povos vizinhos, exigindo inchados tributos. Teriam a oportunidade de vingar a histórica afronta dos odiados Himenópteros, em particular dos Apócritos, em extremo laboriosos e rápidos viajantes.

Dytiscus, Prionus e Carabus andaram distanciados durante uma comprida temporada por questões de âmago: haviam de dilucidar quem dos três ostentaria a supremacia. A força proporcionava argumento a Carabus, Prionus esgrimia sua representatividade, a genuína vontade do povo; mostrava Dytiscus na sua mão a chave da vida eterna. Reunidos em parlamento sendo já noite cega, após ásperas discussões se descobriram compartilhando objetivos: a permanência da Divindade, a proteção da identidade coleóptera e o estabelecimento de uma nova organização social. Acordaram unir seus esforços e tomar o poder formando um triunvirato de pares. Como primeira medida sopesaram as consequências de ilegalizar a investigação filosófica, atividade supérflua quando se conhece cada palmo das numerosas ramificações da verdade. Só o temor à rejeição dos puristas lhes inclinou a penalizar as condutas em vez dos princípios. No dia seguinte, o obstinado praticante da lógica Calathus Melanocephalus, e o escrupuloso docente Liparus Glabirostris, perseguidores da certeza dos fatos provados, acusados ambos de intrigantes foram confinados no seu domicílio.

Um estrangeiro, Lygaeus Saxatilis, Grande Sacerdote do aliado ordem Heteróptero, com o propósito de introduzir o novo culto entre os seus, solicitou licença para estudar a natureza da Divindade e as teorias que a explicavam. Locusta Migratória, chefe dos Quelíferos, pelo contrário, denunciou que o crescimento do exército coleóptero – soldados, armas e bagagem - transgredia os acordos do pacto assinado depois da Grande Derrota. Se somaram à desaprovação, Tettigonia Viridissima em nome dos Ensíferos, Blatta Orientalis, Grande Chaberlán dos Blatarios; e muitos outros: Dermápteros, Odonatos, Apterigotos e Efemerópteros, que no crescente belicismo dos Coleópteros viam um perigo para a paz entre as diferentes Ordems.

Calathus e Agonum, na sua tentativa de escapar de uma morte certa, burlaram o cerco imposto a seus domicílios. Se ocultaram logo na derme telúrica, e seguindo túneis larguíssimos surgiram no território dominado pela ordem dos Himenópteros, vencedora da Grande Guerra, que após um longo período de coexistência pacífica, volvia a ser considerada hostil por causa da portentosa mobilidade de seus indivíduos. Ali prosseguiram Agonum e Calathus o estudo dos numerosos dados recolhidos, ajudados por conscienciosos pesquisadores locais: um grupo de Apis Mellifera e o controvertido Vespula Vulgaris, dissidente himenóptero amparado ao asilo dos coleópteros e retornado a sua pátria de modo encoberto. Tal escrutínio derivou em um melhor conhecimento da substância divina, de cujas características podia derivar-se utilidade prática. As raias de forma cambiante desenhadas no círculo capital, coincidentes uma e outra vez em momentos semelhantes de diferentes dias, serviriam para dividir o tempo em frações exatas e alcançar a tão desejada simultaneidade das atividades comuns.

Seguindo indicações de Véspula, duas vezes traidor, a incursão noturna dos Lamia Textor ao serviço de Carabus Coriaceus, encontrou o laboratório, destruiu os valiosos documentos e degolou aos pesquisadores absortos nas suas coisas. Sofreram os opositores um revés próximo ao desastre, e a Divindade foi adorada em qualquer lugar, pois os fiéis reproduziam ad líbitum a sagrada imagem, traçando o círculo capital e as duas raias laterais de seu emblema.

Estendido o culto, generalizados os sentimentos piedosos, sincronizada a vontade comum, a ordem dos Coleópteros entrou na etapa mais frutífera de sua história, carregada de motivos para dar as graças à Divindade. Era indubitável que a Entidade, protetora dos crédulos, propiciava o progresso com sua única presença. Entre isto e aquilo se desnudaram as árvores de folha caduca, orgulhoso de sua força paralisante chegou o frio, e em um lapso breve foi expulso pelos dias radiantes de sol e sossegados de ventos. A vida eclodia de novo e um grupo de crianças de Homo Sapiens se apresentou na esplanada com sua ordinária algaravia. Desde os mais profundos cantos das luras, desde as taças mais altas das árvores, medrosos, cautelosos, os insetos todos perceberam a renovada calistenia das evoluções lúdicas. Ao entardecer ouviram com nitidez as seguintes palavras, cujo significado desconheciam: “Olhem, um nicho de argila adornado com pedras de cores. Guarda um relógio de pulseira. Ah! A pilha está já nas últimas: os números mudam muito devagar e a música quase não se ouve”.

Horas mais tarde, apaziguado o contorno, caiu a noite e a normalidade se hospedou na pradaria, no terreno arborizado circundante, no arroio que os cruza. Só então os insetos se atreveram a sair de seus esconderijos: um pé e depois outro, receosos ou temerários; e tudo para descobrir que a Divindade tinha partido deixando vazio o altar. O Chefe Religioso Dytiscus Latissimus, lembrou orgulhoso seu vaticínio acerca do que acabava de ocorrer. Alguma ação ou omissão ofenderia à Divindade. Unicamente a penitência podia favorecer seu retorno. Começou então um reiterado exercício de laboriosidade e obediência cega às autoridades civis, religiosas e militares. Ainda ficava alguma esperança.

Pedro Sevylla de Juana

http://www.sevylla.com/

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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

ARS LITTERARIA (15): Ano Novo, Conto novo! Centauros de Pedro Sevylla de Juana


O escritor espanhol, Pedro Sevylla de Juana teve a generosidade de nos oferecer um sugestivo conto-fábula, que aqui fica para deleite de todos os leitores de Ars Litteraria.

Centaurus (2009) / David Zink (design after a classic statue)


Dos centauros e seus modos


À Judith, Óscar e Sérgio,
infantes que já distinguem aos centauros dos homens



Se ignora o carácter da cópula, assim como o tempo que necessitou para frutificar. Mas um frio domingo do mês de Março correspondente ao ano 2009, prodígio do novo milénio, no lugar do globo chamado Villazalama, terra de abundantes pastos situada entre Valdepero e Husillos, começaram à nascer cavalos com tronco humano, braços e cabeça de homem ou, visto de outro modo, homens com lombo, rabo e patas de cavalo. A combinação genética tinha logrado uma espécie nova: os centauros, realidade superadora da fantasia humana que os criou, aqueles filhos de Ixión e da nuvem Néfele, Hera fingida. Sua presença deu pé à perguntas carentes de resposta lógica. Animais ou pessoas: a dúvida inundou as ruas, chegou nas escrivaninhas das universidades, aos claustros de professores; e dali ao intelecto dos filósofos. As leis vigentes resultaram inúteis para regular a convivência do novo e o velho; mero papel molhado e tinta atenuada. Desde os púlpitos os belicosos sacerdotes lançaram anátemas que se ouviam nos cenáculos dos governantes. Os parlamentos trataram o assunto em sessões esgotantes, e acabaram aprovando a elaboração do pão de cevada e a venda de alfafa nas quitandas. Apareceram no mercado gabão-xairel antes inimagináveis, e os negócios de construção e equipamento enriqueceram os ousados.


O homem seguiu o caminho aberto, e seu natural abusivo quis confinar aos quadrúpedes racionais. Não pôde. Asas brotaram aos de maior alçada, aos mais ágeis. Não eram grande coisa; dois apêndices lombares emplumados que lhes permitiam elevar-se pelo ares e desaparecer. Aos seis meses se demonstraram transitórios; ainda assim, durante o meio ano que durava a metamorfose, os centauros se expandiam formando novas colónias. De modo que a espécie recém-nascida se distribuiu pelos quatro pontos cardeais povoando a terra. Os monstros nasciam domados e nada acrescentou o homem nesse sentido. A cabeça humana regia seus actos de besta, humanando as consequências; e a nobreza da besta parecia neutralizar os sentimentos egoístas do homem. De maneira que os novos indivíduos exibiam condutas íntegras acrescentadas a extraordinárias faculdades. Temores e acusações iam perdendo intensidade, até que a rotina quis retornar ao seu. Púlpitos, tribunas e outros palanques reticentes acabaram tolerando aos mestiços. Se adaptaram os usos e as ferramentas às necessidades anatómicas dos híbridos, e em pouco tempo aos novos seres lhes resultou desnecessário demonstrar uma superioridade evidente. Foram penetrando nas formações castrenses, na representação social e na judicatura. Em breve ocuparam postos de relevo nas empresas e nos ministérios; e ajudando os uns aos outros, até os pior dotados alcançaram bom acomodo.


Transcorridos cinquenta anos, os centauros dominavam as variadas pirâmides do poder, e puderam abandonar a dissimulação herdada das pessoas. A raça humana, afastada dos centros de decisão, se viu confinada no ambiente dos trabalhos manuais repetitivos, levando a cabo tarefas sujas ou tediosas.


Pelos meus conhecimentos da antiga cultura, fui um dos destinados a apurar os velhos livros impressos sobre papel, única fonte de sabedoria permitida às pessoas, a que nos está vedado o ingente acervo electrónico. Devia censurar qualquer assomo, por subtil que fora, dos chamados valores humanistas. Antigos impressores, também forçados, editavam novos livros imitando a estampa dos velhos. Os leitores humanos iam abandonando as reivindicações de espécie.


Eu conduzia uma conspiração calada, e para servir aos propósitos rebeldes, todos os livros corrigidos por mim escondem estas linhas em extensos parágrafos insubstanciais.


Os centauros, receosos e inteligentes, descobriram meu ardil. As leis castigam com a morte aos traidores; amanhã dar-me-ão coices em círculo.


Pedro Sevylla de Juana




Biografia

Pedro Sevylla de Juana nasceu em Valdepero (Palencia), a Espanha, em Março de 1946. Desejoso de resolver as incógnitas da existência, começou a ler livros aos onze anos. Para explicar suas razões, aos doze iniciou-se na escrita. Viveu em Palencia, Valhadolid, Barcelona e Madrid; passando temporadas em Genebra, Estoril, Tânger, Paris e Amsterdão. Publicitário, conferencista, articulista, poeta, ensaísta e narrador; publicou dezassete livros. Reside em El Escorial, dedicado por inteiro a suas afeições mais arraigadas: viver, ler e escrever.



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