ARS LITTERARIA revê-se no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo. É um espaço de livre-pensamento e de debate de ideias, não possuindo vinculação a correntes estéticas particulares, nem filiação clubística, político-partidária, ou de cariz confessional, pelo que não assume qualquer comprometimento com os textos e opiniões expressas no seu blog como naqueles que divulga.
Contamos com a vossa colaboração. Para mais informação ver abaixo ou escreva para: arslitteraria@gmail.com

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sábado, 21 de fevereiro de 2009

ARS LITTERARIA (16): Yes, we can!

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Um discurso considerado inconveniente


Foi com estas palavras que o Macedo, meu colega de trabalho, se despediu:
- O rapaz sai ao pai, imprudente e corajoso! Visita o seu blog e logo verás se tenho ou não razão.
Cheguei a casa e liguei a Internet para ver o referido blog.
Entre outros, no blog havia estes dizeres:
“ …agora que já passou mais dum ano desde que o meu pai morreu, divulgo a reportagem que originou o seu despedimento. Como no original desta reportagem os nomes da respectiva embaixada, embaixador e general têm um traço vermelho por cima dos seus nomes, chamar-lhes-ei simplesmente a embaixada x, o embaixador y e o general z.
Eis o texto da reportagem:

Realizou-se na passada sexta-feira uma conferência de imprensa na embaixada x, tendo o Senhor General z proferido o seguinte discurso:

“ Meus senhores,

Quando a guerra começa, parece uma fera que saiu da jaula. Ou melhor, assemelha-se mais a um carrasco a aplicar a justiça com o seu machado.
À sua passagem, a guerra tudo destrói. E essa destruição, primeiro objectivo duma guerra, inclui naturalmente os chamados danos colaterais.
Logo que todos ou quase todos os objectivos militares são alcançados, a fera recolhe à sua jaula.
Mas não se iludam meus senhores!
Mesmo depois da guerra ter acabado, quem a provocou ainda tem muitos objectivos a atingir.
Desde logo tem de pensar no que vai dizer aos jornalistas na conferência de imprensa. Há que ter a preocupação de salvar a imagem, mas aparecem sempre alguns jornalistas que só gostam de perguntar o que não devem. Essa é uma das razões que justifica que os todos os países amigos ou aliados, tenham cuidado ao atribuem carteiras profissionais a jornalistas…
Depois, temos de nos preparar para a sessão de teatro que se aproxima.
E qual será essa sessão de teatro, perguntarão os senhores jornalistas.
Pois eu vos digo:
Trata-se de justificar, perante as instâncias internacionais, a justeza da guerra que entretanto terminou. O que nem sempre é tarefa fácil!
Diz-nos porém a experiência que, se a negociação diplomática for bem feita, tudo se irá resolver a contento do país vencedor.
Tudo se irá resolver? Ilusão! Tudo não! Nunca se conseguem resolver todos os problemas porque há sempre aqueles milhares, gente anónima, que, ou ficaram sem casa, ou ficaram sem nada, ou ficaram feridos, ou ficaram estropiados. Depois da guerra, como não têm onde cair mortos, vêm-nos sempre chatear.
São precisamente esses a quem nós, eufemisticamente, chamamos os atingidos pelos chamados danos colaterais da guerra.
Mas além dessa gente, ainda nos vêm bater à porta aqueles senhores representantes da Cruz Vermelha, ou ainda outros em nome de outros Organismos, a clamar pelos direitos humanos das vítimas.
O que eles gostam é de pedir dinheiro a quem o tem.
Mas antes de nos pedirem o dinheiro já justificaram esse pedido aos quatro ventos, alegando sempre que os mortos precisam de ser enterrados, que os sobreviventes precisam de ser tratados, que as crianças e as famílias refugiadas precisam de comer todos os dias, etc, etc.
É evidente que os meios de comunicação, que precisam de rentabilizar os seus negócios, não mais nos largam. Também por isso, cada país livre deve procurar ter algum controle sobre a imprensa que tem.
Este após guerra, é, por vezes, a parte da guerra que nos traz mais chatices.
Vejo pela vossa cara, senhores jornalistas, que estão um pouco espantados com a frontalidade das minhas opiniões. Isso só demonstra que tem dificuldade em lidar com a verdade.
A guerra é também isto, meus senhores.
Subitamente o Senhor embaixador y levantou-se da mesa onde tinha estado sentado até esse momento, aproximou-se do Senhor General z e disse ao microfone o seguinte:
- Senhores jornalistas,
Ao contrário das nossas expectativas, o Senhor General z excedeu-se nos seus comentários sobre a guerra, eventualmente devido à combustão eufórica dos vapores liberto pelo excelente vinho que a todos foi servido durante este jantar.
Ao ouvir isto, o Senhor General z levantou-se e em passos rápidos abandonou a sala.
O Senhor embaixador continuou:
- Apelo à descrição e ao profissionalismo dos senhores jornalistas presentes sobre a maneira como devem relatar o que agora aqui se passou.
Desejo também que o jantar tenha sido do vosso agrado e muito boas-noites a todos.”
Sem mais, o jantar terminou e não houve mais nenhum discurso.”
Assim terminava a última reportagem que o meu pai escreveu.
Sei que esta reportagem nunca chegou a ser publicada. Foi por causa dela que o meu pai foi despedido.
Quero declarar a toda a gente que o meu pai era o melhor pai do mundo e que a sua morte se deveu ao desgosto provocado pelo injusto despedimento de que foi vítima.
Em sua homenagem dedico-lhe este meu poema:

Um dia no mundo,
Não mais se ouvirão histórias tristes
De guerras, injustiças e misérias,
Nem se ouvirá alguém dizer
Que para vencer na vida
Teve de espezinhar tudo e todos,
Que para ter os privilégios que tem,
Estão a ser sacrificados outros povos e o próprio povo.
Um dia no mundo
Não mais se imaginará o Paraíso no céu,
Mas saberemos construí-lo na própria Terra,
Nem aceitaremos com resignação
Mentiras cobertas por propagandas tendenciosas.
Um dia,
A consciência de cada um
Será formada por válidos princípios
E todos os habitantes do mundo
Serão considerados seres humanos,
Amados e respeitados em toda a parte.
Um dia,
O mundo será um hino de alegria
E no mundo,
Todos saberão a razão porque cantam.
Um dia o mundo,
Será Amor.

Francisco José Lampreia



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segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

ARS LITTERARIA (15): Ano Novo, Conto novo! Centauros de Pedro Sevylla de Juana


O escritor espanhol, Pedro Sevylla de Juana teve a generosidade de nos oferecer um sugestivo conto-fábula, que aqui fica para deleite de todos os leitores de Ars Litteraria.

Centaurus (2009) / David Zink (design after a classic statue)


Dos centauros e seus modos


À Judith, Óscar e Sérgio,
infantes que já distinguem aos centauros dos homens



Se ignora o carácter da cópula, assim como o tempo que necessitou para frutificar. Mas um frio domingo do mês de Março correspondente ao ano 2009, prodígio do novo milénio, no lugar do globo chamado Villazalama, terra de abundantes pastos situada entre Valdepero e Husillos, começaram à nascer cavalos com tronco humano, braços e cabeça de homem ou, visto de outro modo, homens com lombo, rabo e patas de cavalo. A combinação genética tinha logrado uma espécie nova: os centauros, realidade superadora da fantasia humana que os criou, aqueles filhos de Ixión e da nuvem Néfele, Hera fingida. Sua presença deu pé à perguntas carentes de resposta lógica. Animais ou pessoas: a dúvida inundou as ruas, chegou nas escrivaninhas das universidades, aos claustros de professores; e dali ao intelecto dos filósofos. As leis vigentes resultaram inúteis para regular a convivência do novo e o velho; mero papel molhado e tinta atenuada. Desde os púlpitos os belicosos sacerdotes lançaram anátemas que se ouviam nos cenáculos dos governantes. Os parlamentos trataram o assunto em sessões esgotantes, e acabaram aprovando a elaboração do pão de cevada e a venda de alfafa nas quitandas. Apareceram no mercado gabão-xairel antes inimagináveis, e os negócios de construção e equipamento enriqueceram os ousados.


O homem seguiu o caminho aberto, e seu natural abusivo quis confinar aos quadrúpedes racionais. Não pôde. Asas brotaram aos de maior alçada, aos mais ágeis. Não eram grande coisa; dois apêndices lombares emplumados que lhes permitiam elevar-se pelo ares e desaparecer. Aos seis meses se demonstraram transitórios; ainda assim, durante o meio ano que durava a metamorfose, os centauros se expandiam formando novas colónias. De modo que a espécie recém-nascida se distribuiu pelos quatro pontos cardeais povoando a terra. Os monstros nasciam domados e nada acrescentou o homem nesse sentido. A cabeça humana regia seus actos de besta, humanando as consequências; e a nobreza da besta parecia neutralizar os sentimentos egoístas do homem. De maneira que os novos indivíduos exibiam condutas íntegras acrescentadas a extraordinárias faculdades. Temores e acusações iam perdendo intensidade, até que a rotina quis retornar ao seu. Púlpitos, tribunas e outros palanques reticentes acabaram tolerando aos mestiços. Se adaptaram os usos e as ferramentas às necessidades anatómicas dos híbridos, e em pouco tempo aos novos seres lhes resultou desnecessário demonstrar uma superioridade evidente. Foram penetrando nas formações castrenses, na representação social e na judicatura. Em breve ocuparam postos de relevo nas empresas e nos ministérios; e ajudando os uns aos outros, até os pior dotados alcançaram bom acomodo.


Transcorridos cinquenta anos, os centauros dominavam as variadas pirâmides do poder, e puderam abandonar a dissimulação herdada das pessoas. A raça humana, afastada dos centros de decisão, se viu confinada no ambiente dos trabalhos manuais repetitivos, levando a cabo tarefas sujas ou tediosas.


Pelos meus conhecimentos da antiga cultura, fui um dos destinados a apurar os velhos livros impressos sobre papel, única fonte de sabedoria permitida às pessoas, a que nos está vedado o ingente acervo electrónico. Devia censurar qualquer assomo, por subtil que fora, dos chamados valores humanistas. Antigos impressores, também forçados, editavam novos livros imitando a estampa dos velhos. Os leitores humanos iam abandonando as reivindicações de espécie.


Eu conduzia uma conspiração calada, e para servir aos propósitos rebeldes, todos os livros corrigidos por mim escondem estas linhas em extensos parágrafos insubstanciais.


Os centauros, receosos e inteligentes, descobriram meu ardil. As leis castigam com a morte aos traidores; amanhã dar-me-ão coices em círculo.


Pedro Sevylla de Juana




Biografia

Pedro Sevylla de Juana nasceu em Valdepero (Palencia), a Espanha, em Março de 1946. Desejoso de resolver as incógnitas da existência, começou a ler livros aos onze anos. Para explicar suas razões, aos doze iniciou-se na escrita. Viveu em Palencia, Valhadolid, Barcelona e Madrid; passando temporadas em Genebra, Estoril, Tânger, Paris e Amsterdão. Publicitário, conferencista, articulista, poeta, ensaísta e narrador; publicou dezassete livros. Reside em El Escorial, dedicado por inteiro a suas afeições mais arraigadas: viver, ler e escrever.



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quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

ARS LITTERARIA (14): ilá-sefoi... poema de Jorge Castro




e lá se foi o Natal – essa quadra tão magana
enchendo a todos de gana de querer ser solidário
ao fundo um retardatário bate co' as botas no fundo
das costas ou cu se gostas de chamar p'lo nome os bois
a ver se logo depois se aconchega ao borralho
que está de arrebimba-ò-malho o tempinho cá na rua
e farto de ver a Lua anda o velhote da história
que tem seu mês de glória um só e em cada ano
triste e só anda este mano quem sabe vive de esmola
que a cena da Coca-Cola acabou já faz uns tempos
agora ele é só lamentos pela roupa vermelhusca
pela criançada cusca e aquela barbaça hirsuta
que seria coisa bruta não fosse ela alva de linho
corre pois ele para o ninho farto de prendas e renas
como se penasse penas por tanto a todos pesar
que com ele é só comprar – comprar – comprar – e comprar
não tem nada que enganar mas não há já quem o ature
e não sabe ele como fure este destino aziago
de do consumo ser mago e coisa de meter dó
ouvir-se-lhe o oh-oh-oh no espaço sideral
no centro comercial ou no écran de plasma
e a malta toda pasma de viver tanto o velhote
sem haver quem o enxote pois graça não tem nenhuma
a não ser aquela uma de favorecer as compras
ah não se ouvirem as trompas de alguma divina orquestra
dando ao Natal que nos resta personagens mais catitas
e acabar com as fitas de um pai natal que coitado
viverá desconsolado nos quintos do pólo norte
maldizendo a triste sorte de ter só com ele as renas
dores nas cruzes e as tais penas de vaguear tão sozinho
melhor muito melhorzinho ficaria o Nicolau
se em vez do banco de pau que o espera em seu ermo
a tal multinacional ao ermo pusesse um termo
e lhe desse companheira
roliça – doce – matreira – brincalhona – prazenteira
também de rubro vestida mas sem barba tão comprida
de precária situação ou com termo de contrato
mas que desvie o ancião do destino caricato
e lhe dê prendas a ele que tão farto está das penas
e das cenas com as renas e com razão afinal
e nos deixe no Natal o presépio cultivar
sem ter que comprar – comprar – oh-oh-oh
tão só comprar…

- Jorge Castro
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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

ARS LITTERARIA (13): Presentes de Natal de José Fanha


Chritmas'words - V (2008) / David Zink


Amigas e amigos,

O que eu gostava mesmo era de ser o Pai Natal. O verdadeiro. O autêntico. O que desce pelas chaminés e leva uma prenda a cada menino. E, já agora, a cada adulto.

Sei que já não há chaminés por onde possa escorregar um Pai Natal que se preze. Teria de aprender outros truques para entrar na casa de cada um.

Mas havia de levar prendas daquelas que não são compradas à pressa. Nem precisam de muitos laços e fitas. Prendas com prendas dentro. Das que ficam muito tempo a fazer ninho no coração das pessoas.

Levava sorrisos. Sobretudo sorrisos. Não daqueles que se acendem a medo, de espinhela dobrada, "com-licença-faz-favor". Mas sorrisos fortes como os dos homens que são capazes de olhar de frente a vida e dar a volta aos tropeços do destino.

Levava palavras. Palavras escritas devagarinho e com todas as letras. Palavras fraternas e limpas como as pedrinhas que se apanha à beira mar. Cada uma escolhida de propósito para cada pessoa.

Levava livros também. Daqueles que nos oferecem muitas horas de viagens verdadeiras, de alegria, de espanto, de maravilha, de medo, de ternura. Daqueles que nos fazem conhecer outras pessoas, com outros desejos, outras dores e outros sonhos. Livros que nos ajudam a saber que cada um de nós não é o centro do mundo e nos permitem a festa estender pontes daqui para ali, do nosso peito para o longe do universo.

Talvez não consiga levar-vos tudo isto pessoalmente. Mas segue um abraço dado com toda a força e o desejo de muita luz neste Natal.

José Fanha


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domingo, 14 de dezembro de 2008

ARS LITTERARIA (12): Natal, mar de livros



LANÇAMENTOS NATALÍCIOS



Para este Natal, entre as melhores ofertas estarão os livros e os discos. Os editores sabem-no e nesta altura inundam o mercado com novas edições, do melhor ao pior.

É um período em que os potenciais leitores tendem a ser acríticos por falta de tempo para uma análise detalhada, e por isso mais permeáveis ao marketing das editoras, que nesta altura apostam sobretudo em valores mediáticos: em primeiro lugar, os livros assinados por jornalistas ora travestidos de romancistas históricos (sem que sejam escritores ou historiadores, tratando da escrita como quem trata de uma receita de culinária: uma pitada de sal, um enredo policial,..., tantas gramas disto, tantas daquilo,... ah um bom pedaço de amor, ou melhor ainda de sexo, para dar aquele “gostinho especial”...), logo seguidos dos escritores premiados, desta feita já sem o (justo) Nobel à cabeça mas de um seu ambicionado candidato... até chegar aos que pela primeira vez se aventuram nestas lides (o que só por si é um acto de coragem, tendo em conta o elevado preço dos livros e a crise financeira a que conduziram os arautos do neo-liberalismo, quais agentes branqueadores dos desmandos de empresários e de políticos sem escrúpulos).

E não é que a escrita não possa ser um "mundo de aventuras", aliás um romance é, invariavelmente, isso mesmo. Mas, é certamente preciso mais do que isso (por exemplo, no caso do ressurgimento do romance histórico, que teve grandes escritores a valorizá-lo - Marguerite Yourcenar, com as Memórias de Adriano e a Obra ao negro, Umberto Eco, com O Nome da Rosa e O pêndulo de Foucault, Christian Jacq com Champollion, o egípcio e outros tendo como matéria-prima o Antigo Egipto e mais tarde a vida de Mozart (com uma muito interessante tese sobre as causas da sua morte), Steven Saylor, com Sangue Romano e seguintes de uma saga não terminada, e, entre nós, José Saramago, com o Memorial do Convento, etc. –, aliando preocupação de rigor histórico e ficção, numa escrita simultaneamente vigorosa e cuidada, com sentido humanista, em que as técnicas utilizadas (a do suspense tornou-se um must), não constituem um fim em si mesmo, mas são pretexto para aliciar o leitor para um exercício de inteligência, ou de reflexão sobre a dimensão ética da existência humana, ou visam mesmo tão simplesmente informá-lo de diferentes horizontes para além daquele que o leitor já abarca. E, é sabido que depois destes autores o romance histórico tornou-se palco de um enxame de sub-produtos oportunistas, pseudo-literatura susceptível de seduzir os incautos que se deixam levar na onda (é, sobretudo, a estes, que é dirigido o marketing). Claro que há excepções como Matilde Ascensi, Inès Nollier, Joan Ohanneson, e talvez mais alguns…, mas a maioria é absolutamente deplorável, devendo destinar-se ao caixote do lixo como se de comida estragada se tratasse (parafraseando Luiz Pacheco, literatura comestível precisa-se!).

Não que não seja louvável só por si o acto da escrita, ou que esta deva ser privilégio exclusivo dos profissionais da escrita (dos quais, como se sabe, só alguns são na realidade bons escritores, independentemente do estatuto que alcançam).

Não se nasce escritor! Veja-se, por exemplo, o caso de Umberto Eco (um dos escritores mais prolíferos e celebres da actualidade): começou por ser filósofo e ensaísta, só mais tarde se encontrou como escritor ficcional.

Não é, pois, disso que se trata, mas tão só de distinguir o trigo do joio. Num país que não tem hábitos de leitura e com fraco poder de compra, afigura-se como particularmente importante que o leitor desprevenido não leve gato por lebre, mais a mais quando se corre o risco de a escrita banal afastar de vez os potenciais leitores da prática da leitura (sobretudo se houver uma sensação de não retorno, em prazer, do dinheiro e do tempo investidos)… o que obviamente não sucederá com os leitores mais experientes e avisados.

Aliás, nem sequer é necessário ser de um bom escritor para que um livro mereça ser lido, basta que acrescente algo ao nosso conhecimento ou ao modo de ver aquilo que supomos conhecer. É claro que se for bem escrito, tanto melhor! E, por bem escrito entenda-se não o mero burilar (frequentemente gongórico) das palavras procuradas no dicionário (que alguns julgam ser o único modo de cultivo da língua), mas a capacidade de um escritor criar em nós um interlocutor activo (seja pela fluidez da escrita ou pelo efeito da interpelação conseguida) e de nos seduzir para a prática da leitura de outros livros (seja pelo ritmo da articulação das palavras e do enredo, ou por quaisquer outras razões).

Ars Litteraria não pode, obviamente, permanecer indiferente ao mercado literário, mas deseja sobretudo contribuir para a divulgação de obras que interajam de forma positiva com o leitor, independentemente da maior ou menor visibilidade dos seus lançamentos e dos circuitos de distribuição. E neste Mar de livros, há que fazer boas escolhas. São, pois, os nosso votos para este Natal:
Boas escolhas! E... Boas Leituras!
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sábado, 6 de dezembro de 2008

ARS LITTERARIA (11): Rui Zink fala do "bicho da escrita"



E, porque nos tempos que correm O bicho da escrita continua a fazer das suas - ele anda por aí... - mas também porque o excelente texto irónico-reflexivo de Rui Zink acerca da prática da escrita nos nossos dias (ao qual já nos referiramos em Ars Litteraria - 1, ver em : http://arslitteraria.blogspot.com/2007/07/ars-litteraria-1-o-bicho-da-escrita.html) deixou de estar disponível no site do Instituto Português do Livro e das Bibliotecas (que em 2004 tinha também promovido a edição em opúsculo logo esgotado), após a transformação deste em Direcção-Geral do Livro e das Bibliotecas, republicamos aqui (com a devida autorização)...


O BICHO DA ESCRITA / Rui Zink


Todos os meus amigos escrevem. Excelente. Todos os meus amigos gostam de escrever. Formidável. Eu próprio não desgosto de escrever, embora já não o faça. Escrever é bom. Escrever as palavras. Escrever as coisas. Escrever o mundo. O mundo dentro de nós. E o mundo fora de nós. Todos os meus amigos escrevem. Todos os meus amigos são escritores. Todos os meus amigos fazem livros.

E o pior é que não são só os meus amigos. As outras pessoas também. Os meus vizinhos escrevem – poemas. O senhor que entregava as cartas também escreve – livros de viagens, acho. A empregada do café escreve romances policiais, o funcionário do banco escreve novelas de amor, o dono da mercearia escreve – romances históricos. A minha mãe escreve ficção científica, os meus irmãos escrevem banda desenhada, até os nossos primos mais afastados escrevem – acho que best-sellers, mas não tenho a certeza, podem ser apenas ensaios de hermenêutica neo-visigótica.

Só o meu pai não escreve, porque já morreu. Se estivesse vivo escrevia de certeza, e até sei o quê – novelas picarescas. No hospital, todos os doentes escrevem e os médicos que lhes prescrevem as receitas também escrevem. Da literatura inclusa à literatura médica, nem mesmos os enfermeiros, os maqueiros, os polícias de piquete ou os funcionários do balcão de atendimento deixam de escrever.

Esta situação é preocupante. O governo já anunciou que irá tomar medidas. Não é de excluir, admitiu o porta-voz do governo, que seja declarado o estado de emergência. O porta-voz do governo já não fala – ele próprio foi atingido pela doença. Eu por acaso li o que escreveu, mas não sei se ele estava a falar a sério – a escrever a sério – ou se era apenas mais um capítulo da sua nova (e interessantíssima) ficção política. Aliás, devo ter sido o único que o leu ou, vá lá, um dos poucos. Porque deve haver mais como eu, quero dizer, tenho de partir desse princípio, não? Convém não confundir o facto de não conhecer mais ninguém como eu com a assunção, quiçá precipitada, de não haver mais ninguém como eu.

A doença é altamente contagiante. Faz o Ebola parecer um vírus de brinquedo, tal a velocidade a que se reproduz e transmite. O período de incubação dura entre três a seis horas, findo o qual a vítima, até então uma pessoa normal, se torna abruptamente num escritor. Os hospitais estão a rebentar pelas costuras, a abarrotar de gente obcecada pela sua dose de papel e caneta. E cada vez têm de escrever mais, de aumentar a dose, porque cada vez têm mais e mais ideias, mais e mais amor à literatura, às belas palavras, à poesia secreta que se esconde por trás das belas palavras – mesmo das feias, dizem os casos terminais.

Os cientistas ainda não conseguiram isolar o vírus, ou encontrar um antídoto, ou mesmo simplesmente identificar a origem da doença, ou explicar-lhe a natureza, porque… pois, isso mesmo, estão todos ocupados a escrever. Há pessoas que já definharam e se consumiram por inanição. Nada de espantar, é até bastante lógico, embora escabroso: escrevem, não comem, morrem. Acidentes ocorrem em massa. Os despistes são mais que muitos. Por toda a cidade se ouvem explosões. Os taxistas vão muito bem a meter a terceira, lembram-se de uma frase, põem-se a escrever, largam o volante e… É terrível.

Até as crianças se põem a escrever. As que ainda não sabem o alfabeto inventam um, ou garatujam bonecos simbólicos, e inventam histórias, histórias, histórias. Bebés de um ano, que digo?, de meses, pegam numa caneta, num lápis, e mexem as mãozitas fechadas para a frente e para trás, com uma habilidade inaudita. Claro que acabam por rasgar o papel e rabiscar o chão todo para além das esparsas fronteiras da folha branca, mas não se importam com isso, continuam sem parar a escrever os símbolos do mundo. E os pais também não ligam, porque eles próprios estão ocupados a escrever, e o que é um chão todo rabiscado em comparação com um brilhante conto infantil onde uma princesa ajuda um cavaleiro a não se perder na floresta negra onde vai combater um dragão maligno com a simples dádiva de um dos seus belos cabelos louros? Hum?

Nunca se viu nada assim. A situação é grave, toma proporções calamitosas e não há sinais de se vir a atenuar. Gostaria de o dizer de outra maneira, mas não há outra maneira de o dizer: o mundo corre o risco de sucumbir ao peso de tantos romances, contos, ensaios, novelas, poemas. Os poemas, esses então, são mais que as mães. Odes, elegias, éclogas, adágios, quadras, redondilhas, dísticos, ditirambos, alexandrinos, pastorais, quintanilhas, décimas, duodécimas, litotes, sonetos, sonetinos, sonatinas.

Não estou a ser alarmista. A Terra já saiu ligeiramente da órbita. E o número de escritores e poetas não pára de aumentar de dia para dia. E o número de palavras escritas. E de frases inovadoras: curtas, longas, frases de uma só palavra (“Ele. Disse. Para. Ela.”), frases sem vírgulas durante duzentas páginas (“Não vale a pena dar aqui um exemplo teria de ocupar duzentas páginas mas esta pequena amostra talvez já sirva para dar uma ideia ou então o melhor ainda é pelo menos gastar mais meia linha com esta frase idiota de modo a que a ideia que estava a tentar ser dada seja mais clara e convincente e acho que agora já chega o exemplo já está dado acho”), torniquetes e arrebites de sintaxe que não julgaríamos possíveis ou razoáveis.

Uma pessoa pergunta-se sempre: “Que mais irão eles inventar?”. Ou “Será que ainda há algo para inventar?” Pelo menos era o que me perguntava antes – antes da epidemia. Pois se há coisa que a doença veio provar é que as possibilidades de invenção – e as capacidades humanas de inventar – são inesgotáveis. É triste, mas é a dura realidade: a imaginação humana está em contínua expansão, como o universo. A imaginação humana é como um buraco negro, tudo consome, tudo devora. E a humanidade corre o risco de se extinguir por causa disso. Por excesso de imaginação, por excesso de talento, por excesso de criatividade.

Com franqueza, há um limite para tanta produção artística e cultural. Ou devia haver, porque, pelos vistos, não há.

Ainda por cima de qualidade. Sim, porque, quem sou eu para o negar?, as pessoas não só escrevem como ainda por cima o que escrevem é bom, é interessante, é válido, merece ser lido, tem estilo pessoal, vem ocupar um espaço no espaço da literatura que estava por ocupar porque não sabia, antes de ser ocupado, que esse espaço existia e era ocupável. Cada pessoa cria o seu nicho com a mesma avidez e a mesma precisão milimétrica com que a andorinha constrói o seu ninho. E, se é certo que uma andorinha não faz a primavera nem um escritor chega para fazer a literatura, muitas andorinhas juntas, milhares, milhões, biliões de andorinhas juntas chegam e sobram para fazer à vontade uma caterva inteira de primaveras: sobretudo daquelas que trazem como brinde gratuito uma senhora porção de verões, outonos e, claro, invernos. Esse é que é o busílis.

E esse é também o génio do vírus. Põe as pessoas a escrever – e a escrever bem. Se lhes desse a vontade, mas não o talento, ainda era como o outro. Um médico que descobre, ao fim de centenas de páginas, que se limitou a parodiar Fernando Namora, pode ainda voltar a exercer medicina, a fazer aquilo para que tem realmente jeito. Uma advogada que se dê conta de que nem todas podemos ser Agatha Christie ainda pode ser útil aos seus clientes. Mas que fazer com um obstetra que faz páginas belíssimas? E com uma causídica que nos faz ficar na dúvida sobre quem é o criminoso até ao derradeiro parágrafo? Hum? É triste. É trágico. É insuportável. Histórias bem arquitectadas, com indiscutível mestria, personagens credíveis, textos que compreendem a essência da coisa literária: que não é nas palavras, mas para além das palavras, que se encontra a beleza do texto.

A princípio até houve uma euforia colectiva, os jornais falavam de um “novo nascimento”, os críticos de um “momento ímpar” da nossa literatura, os poderes públicos da pujança de uma “nova geração de criadores”. Só depois começaram os pequenos indícios de que poderia haver algo de errado neste surto de talento, mas ninguém conseguiu – ou quis – ver o que estava a acontecer. E, verdade seja dita, por essa altura também já muita gente estava contaminada e começara a escrever, primeiro com alguma hesitação e sentido de responsabilidade, depois cada vez mais furiosamente – até ao romance final.

Agora? Agora o mundo é um lugar lúgubre, são tempos enegrecidos, estes. E o pior é quando chegar o inverno. No verão ninguém dá por falta das formigas, apenas das cigarras. Mas quando chega o inverno… Os mercados estão vazios, a distribuição de pão e outros alimentos básicos não é feita, o próprio pão não é feito. As lojas estão vazias, abertas, escancaradas para a rua, mas vazias. Sem ninguém a guardá-las, sem ninguém nas caixas, sem ninguém para acender ou apagar as luzes. Nos hipermercados, uma pessoa pode levar para casa tudo o que quiser nos carrinhos metálicos. Mas, se não tiver uma moeda, não pode levar nem um carrinho porque não há onde trocar a moeda.

Há, claro, coisa boas. As televisões deixaram de funcionar. Acabaram-se as telenovelas, as “novelas da vida real”, e a ironia é que se acabaram precisamente na altura em que se multiplicou por mil o número de autores de telenovelas. Só que já não há ninguém para as filmar: actores, operadores de câmara, maquilhadoras, realizadores, produtoras, assistentes de realização, equipas de luminotecnia, guarda-roupa, pós-produção e montagem, estão todos cada um para seu lado a escrever o livro das suas vidas. Também, seria preciso dizê-lo?, já não há boletim meteorológico. Receio que aconteça o pior se os barcos forem para o mar sem saber que mau tempo os espera. Mas imediatamente me dou conta da parvoíce que acabo de dizer. Já não há ninguém para se fazer ao mar, os pescadores abandonaram as redes, os arpões, os convés, os iscos, e estão todos de papel e caneta a descrever relatos de naufrágios, aventuras com peixes de nome impronunciável, palimpsestos de Moby Dick, versões melhoradas e adaptadas aos tempos modernos da noveleta de Hemingway, O Velho e o Mar.

Há bocado disse que eu devia ser o único a ter lido o último comunicado do governo. Depois corrigi e disse que não, talvez não seja o único. Talvez não seja, de facto, mas até agora não sei onde estarão os outros, esses outros que ainda não foram atingidos por esta loucura colectiva, nem se serão como eu ou se terão eles mesmos sofrido alguma mutação. Não sei por que motivo fiquei imune ao vírus. Terá a ver com o meu ADN, o meu código genético, com o meu tipo de sangue, com a insuficiência (ou o excesso) de melanina nos meus poros? Faltam-me os conhecimentos científicos para o poder dizer sem correr o risco, impróprio sobretudo nesta ocasião, de cair na ficção científica ou no delírio fantasista disfarçado de saber objectivado.

Se não sou a única pessoa no mundo que, neste momento, neste talvez derradeiro momento da humanidade, lê o que os outros escrevem, onde estão os meus camaradas de armas? Será possível reunirmo-nos e criar um bastião de resistência, uma organização underground que lute contra a epidemia e, através do estudo, da leitura, da experimentação teórico-prática, encontre uma solução para devolver a saúde aos homens e pôr de novo o mundo a funcionar? Não sei. Confesso que não tenho muita esperança.

Eu sou um leitor. Sei o que sou: leio o que outros escrevem. Faço-o até compulsivamente. De manhã, ao pequeno-almoço, mesmo que não tenha um jornal pela frente, as páginas com a tinta ainda fresca aflorando a chávena de café, os meus olhos percorrem instintivamente a mesa, à procura de palavras, letras, frases para ler: “Corn Flakes”, “rico em vitaminas e minerais”, “Loja 18 – Rua Camilo Castelo Branco, 15-A”, “Planta – margarina vegetal, 250 gramas”… Depois, à medida que o dia avança, vou lendo tudo: todos os jornais, todos os anúncios, todos os números de todas as portas, todos os nomes de todos os médicos na placa da policlínica que fica na rua pela qual perpasso todos os dias. Leio todos os romances que me passam pela frente, leio todos os ensaios que consigo ler, todos os poemas que me passam para a mão quando, à hora do almoço, vou comer um mini-prato ao balcão da pastelaria do bairro onde fica o meu emprego, no qual tenho por função ler todos os documentos que colocam em cima da minha secretária para esse mesmo devido efeito, que é eu lê-los.

É verdade, não sei por que milagre fiquei imune ao vírus. E o engraçado é que nem sempre fui assim. Em jovem, eu próprio tentei escrever. Pode-se lá viver sem ter tentado escrever! Embora nessa altura, devo dizê-lo, houvesse muito menos gente a escrever. Eram outros tempos, havia muito analfabetismo, era uma vida de trabalho. Depois, descobri que preferia ler. Mas antes, confesso, eu próprio tinha a mania de escrever. Nada especial, acho: uns poemetos, um ou outro conto, dois ou três esboços de diálogos para teatro. Mas não vale a pena escondê-lo, eu tinha a mania de que sabia escrever.

Talvez por isso eu tenha ficado imune, se calhar o meu pecadilho de juventude – queria ser escritor! – funcionou como vacina. Isso protegeu-me, até à data, admito, mas não sei até que ponto isto é uma bênção ou uma maldição. Sou um leitor num mundo de escritores, e isso faz-me sentir muito sozinho. Porque todos escrevem – mas ninguém lê o que os outros escrevem. Ninguém senão eu. Não têm tempo. Estão tão absortos a contar a sua história, a conceber o seu monumento de imaginação e arte, que não têm tempo para ler. Nem é uma questão de ter tempo, é que, simplesmente, já não conseguem. Não conseguem ler. E, qualquer dia, já não sabem ler. As línguas assim vão acabar, ainda antes mesmo do mundo, porque cada um vai cada vez mais e mais escrever na sua própria língua, no seu código muito pessoal, esquecendo-se de que a comunicação tem dois sentidos e que, para se ser compreendido, é preciso partilhar os elementos para essa compreensão. Não lêem. Só escrevem. Morrem. Tal é a potência, a perversão demente do vírus.

E você? Não sei se existe, caro/a colega de sobrevivência neste mundo em colapso. Se ler isto, é porque ainda existe, e então fica a saber que, algures no planeta, talvez mesmo na sua cidade, há alguém que partilha os seus medos, angústias, mas também as suas esperanças. E talvez possamos encontrar-nos, era mesmo bom que trocássemos umas ideias sobre o assunto, para unir esforços, e procurar outros como nós: leitores imunes ao bicho da escrita. Bem sei que a sua primeira reacção talvez seja pensar: “Este tipo está a tentar enrolar-me. Ele próprio é um escritor, não um leitor de verdade. Ele próprio foi contaminado e está a tentar fazer-me crer que não, provavelmente com algum fim pouco honesto.”

Está no seu inteiro direito de pensar isso, eu também o pensaria se me aparecesse pela frente uma história assim. Nós não somos desconfiados por natureza, mas por cultura – e nunca ninguém perdeu em desconfiar do vizinho. Peço-lhe apenas o benefício da dúvida. Peço-lhe? Imploro-lhe. Aqui onde me vê, estou de joelhos, implorando-lhe que acredite em mim. Isto não é uma história, isto não é ficção. Estou apenas, genuinamente, a tentar estabelecer contacto com alguém que exista do outro lado da página.

Estou a estender-lhe a mão. Por favor, considere a possibilidade de me estender a sua.

Só mais uma palavra. Não escreva a responder. Bem sei que se calhar está imune, mas nunca se sabe. Apareça, apenas. Eu saberei reconhecê-lo/a, e você também me reconhecerá com facilidade. Seremos os únicos – na praça, no jardim, na rua, no café, onde quer que nos encontremos – sentados pacatamente, com um sorriso nos lábios e um livro, aberto, na mão.


copyright: Rui Zink
e actualmente, ainda em site alemão dedicado à literatura portuguesa:
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domingo, 23 de novembro de 2008

ARS LITTERARIA (10): Desassossego de Fernando Pessoa, ou de nós pessoas?


O LIVRO DO DESASSOSSEGO
DE FERNANDO PESSOA

5.ª feira, pelas 19 horas, no Teatro Nacional de São Carlos (em Lisboa ; metro: Baixa-Chiado), será (re)lançado O Livro do Desassossego, essa obra em aberto de Fernando Pessoa (por interpostos heterónimos: Vicente Guedes e Bernardo Soares), em nova edição alargada, revista e anotada por Teresa Sobral Cunha, dada à estampa pela Relógio d'Água, e que a par dos últimos livros de José Saramago e Rui Zink, se apresenta como uma das melhores prendas deste Natal que se avizinha.
A apresentação, para a qual estão desde já convidados todos os leitores de Ars Litteraria, por deferência do convite que nos foi remetido pela referida especialista pessoana, estará a cargo de Patrick Quillier, seguindo-se leituras de textos da obra por Beatriz Batarda e Gastão Cruz.


Na Wikipedia pode ler-se a propósito desta obra insólita:

«O Livro do Desassossego é uma das obras maiores de Fernando Pessoa. É assinado pelo semi-heterónimo Bernardo Soares. É um livro fragmentário, sempre em estudo por parte dos críticos pessoanos, tendo estes interpretações díspares sobre o modo de organizar o livro.
Teresa Sobral Cunha considera que existem dois Livros do Desassossego. Segundo a estudiosa, que organizou em conjunto com Jacinto do Prado Coelho e Maria Aliete Galhoz a primeira edição do livro editada apenas em 1982, existem dois autores do livro: Vicente Guedes numa primeira fase (anos 10 e 20) e o já referido Bernardo Soares (final dos anos 20 e 30). (...)»


E para que o desassossego seja ainda maior, assinale-se que foram hoje inauguradas na Internet novas possibilidades de acesso ao conhecimento da obra do poeta modernista, nomeadamente:
«o portal Arquivo Pessoa + MultiPessoa que integra:

a) a Obra édita de Fernando Pessoa, em base de dados pesquisável: http://arquivopessoa.net

b) o Labirinto, secção de iniciação para leigos e estudantes: http://multipessoa.net/

O corpus textual que agora fica acessível - com cerca de 4500 textos - contempla apenas as obras editadas até 1997 (ano em que foi editado em cd-rom concebido pela mestra e doutoranda Leonor Areal:
MultiPessoa - Labirinto Hipermedia (‘Fernando Pessoa Multimédia’). Lisboa: Texto Editora, 1997).
Porém, aos poucos, será actualizado com os inéditos descobertos na última década, que são largas centenas».
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domingo, 26 de outubro de 2008

ARS LITTERARIA (9): O destino turístico, novo livro de Rui Zink


O DESTINO TURÍSTICO : ficção ou realidade?


O escritor e professor universitário Rui Zink deu à estampa o seu último livro. O lançamento "oficial" ocorreu no passado domingo, dia 26 de Outubro de 2008, pelas 17hoo, na FNAC Chiado, com sala cheia para ouvir a apresentadora, a escritora Inês Pedrosa, actual directora da Casa Fernando Pessoa, e, é claro, o próprio autor. Sala cheia: intervenções dos "conferencistas", e a habitual sessão de autógrafos. As performances são efémeras, como se sabe, e delas beneficiou apenas quem lá esteve, mas o livro, esse aí está.

Sinopse:

«Há um sítio onde se faz turismo de guerra. Quem lá vai quer assistir e participar ao vivo em bombardeamentos, explosões e atentados. Há anos que a Zona é tristemente célebre pelo estado contínuo de guerra civil… é um verdadeiro “paraíso infernal”. Greg parece ser apenas mais um turista, mas o seu guia – após o desaparecimento de uma delegação de observadores filipinos – começa a questionar as suas verdadeiras intenções. Porque será que Greg decidiu visitar aquele inferno de horror quotidiano?!».

Citações de alguma crítica especializada:

"O meu texto favorito é um que doravante usarei como referência. Citá-lo-ei a amigos, farei cópias para os mais próximos (esperando não ser processado por violação de direitos de autor). (...) É uma tremenda história, esta de Rui Zink, acerca do apocalipse de que todos somos testemunhas"
- Sheheryar B. Sheikh, in Newpages.com

"Um escritor extremamente original no vasto universo da literatura portuguesa contemporânea"
- Helena Vasconcelos, in Colóquio Letras

"É possível ter uma perpectiva inovadora sobre as coisas banais? Sim. É isso que faz Rui Zink"
- Tiago Damião, Atlântico


Trata-se, quanto a nós, de uma verdadeira obra-prima (ler para crer, como São Tomé, e nós já o fizemos!), ainda que sendo um livro "duro", num registo distinto da maioria das suas anteriores produções de escrita ficcional - diametralmente oposto ao precedente e "terno" romance A Espera - mas de uma notável poética plena de sentidos múltiplos que catapulta o leitor acima do caos descrito e paradoxalmente, elevando-o acima da realidade, lhe fornece uma maior objectividade, tudo numa dinâmica avassaladora mas com uma escrita cuidadosa que atenta no detalhe, e simultaneamente com um suspense que nos deixa agarrados ao livro até chegarmos ao fim, e mesmo para lá dele, pois somos levados a uma reflexão sobre os actuais caminhos da (des)humanidade. Obra singularmente "profética", no rescaldo da "Bush Era", diríamos quase obrigatória para compreender a crise (note-se que o texto foi escrito antes desta se revelar aos olhos de todos nós) e o que ela nos pode reservar ainda...

Em suma, um livro em tudo diferente do que é habitual na literatura portuguesa, Ars Litteraria recomenda vivamente. Ah, tem também uma belíssima capa...

Preço módico: ca. 15 €


quinta-feira, 20 de março de 2008

ARS LITTERARIA (8): In-vasões, logo E-vasões!



O medo


Amanhece.
- Não tomar o pequeno-almoço para que o sangue esteja mais puro!
No laboratório de análises, a sala de espera está cheia de gente.
Faz calor.
No rosto de todos lê-se medo e angústia.
A certa altura, a funcionária anuncia: Senhor Francisco.
Sento-me na cadeira e uma enfermeira precipita-se sobre mim.
No dístico da sua bata está escrito: Maria Vampiro.
Quando sorriu, dois dentes assomaram-lhe pelos cantos da boca.
Fecho os olhos e não me lembro de mais nada. Apenas ouço tiros e a bomba a rebentar. Não sei quantos morreram. Só sei que cheira a sangue, se é que o sangue tem cheiro. Na televisão alguém anuncia:
- Comemoram-se hoje cinco anos da invasão do Iraque.
- Comemoram-se? Mas como? Então os crimes também são comemorados?
Depois, sinto a agulha a penetrar-me no braço mas, corajoso, não tremo.
Passados uns momentos, ouço uma voz que parece vir do outro mundo:
- Já pode abrir os olhos e bom-dia.
Saio.
Cá fora o céu está lindo e as pessoas passam apressadas, indiferentes.

Francisco José Lampreia

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

ARS LITTERATUR (7): Palavras de Natal de José Fanha



UM GRANDE ABRAÇO
do José Fanha



Escrever é uma festa, uma aventura, um mergulho, uma viagem.

Escrever é uma cana de pesca que lançamos para dentro e para fora de nós. O anzol vai por ali abaixo e na volta vêm emoções, afectos, dores, sonhos, ilusões, utopias.

Quando escrevemos, estamos a abrir novos espaços, galáxias, continentes, oceanos fantásticos que só existem através das palavras.

Quando escrevemos tudo é possível. Podemos inventar o mundo e inventarmo-nos a nós próprios. Podemos chamar alguém que está longe ou já partiu para regressar ao nosso convívio no canto da saudade e da memória.

Por tudo isto, em certas épocas, desatamos a escrever a quem amamos. Às vezes nem temos tempo para parar um pouco a dar espessura e verdade às palavras que enviamos. Ou falha-nos a imaginação no meio da lufa-lufa da vida. Ou tornamo-nos presas do mecanismo mais ou menos perverso que envolve o mecanismo das comemorações. Socorremo-nos então de frases feitas, cartões, e-mais enviados e reenviados.

O Natal é assim. Tornou-se assim? Ou foi sempre assim? Não sei.

Sei que para mim, repito, escrever é uma festa. E com esta festa comemoro a outra, a do Natal. Nascem palavras. Nascem ideias. Nasce e renasce a vida. Uma festa para viver por dentro do coração.

E nesta festa, em volta das palavras, relembro-vos a todos, amigas e amigos queridos, mais antigos ou mais recentes, gente com quem marchei braço a braço para conquistar a liberdade, para sonhar, para partilhar o novelo dos afectos e o fogo das paixões, amigos ao lado de quem mergulho nos mistérios da vida, com quem partilho o deslumbre, a inquietação ou a desobediência.

A todos gostava de juntar num grande abraço e lembrar um poema do David Mourão-Ferreira, dos mais singelos que conheço.


SURDINA DE NATAL PARA OS MEUS NETOS

Ó David Ó Inês
Vamos ver o Menino
inda mais pequenino
que vocês

Vamos vê-lo tapado
sob o céu do futuro
com a sombra de um muro
a seu lado

Vamos vê-lo nós três
novamente a nascer
Vamos ver se vai ser
desta vez


PS. Já agora podem visitar o blog http://www.queridasbibliotecas.blogspot.pt/
e se assim o entenderem, deixem uma palavrinha.


quinta-feira, 25 de outubro de 2007

ARS LITTERARIA (6) : Eça agora? Perdão, Essa agora!


O «BANDO DOS 7» VOLTA A ATACAR


A propósito do lançamento ocorrido ontem na BNP (ver http://arsintegrata.blogspot.com/ ) do último livro do «Bando dos 7» - Eça agora : os herdeiros dos Maias - , Ars Litteraria reproduz, com a devida vénia e autorização expressa do autor, o texto elaborado por Rui Zink para a apresentação desta obra colectiva dos escritores Alice Vieira, João Aguiar, José Fanha, José Jorge Letria, Luísa Beltrão, Mário Zambujal e Rosa Lobato Faria.



Essa Agora?!?


Bom, vamos lá a despachar isto. Para que conste dos autos, temos presentes em corpo e papel, uma tal de Beltrão, um Aguiar, uma Vieira (relação possível com futebol), uma Lobato de Faria (da família do editor, provavelmente, está na cara que é cunha), um Letria, um Zambujal, uma Fanha… Um Fanha – raio de nome.

Escreveram um livro a catorze mãos, o que é suspeito, sendo eles sete, a menos que tenham usado também a mão esquerda, o que não sendo suspeito, está fora de moda, como atestam os autos. O volume em causa intitula-se Eça Agora, e ostenta desde logo um erro de português, Essa escrito com cê de cedilha, o que, se mais fosse necessário, é prova provada de que se trata de um romance pós-moderno, escrito por portugueses pós-modernos, it est, escritores que publicam best-sellers mas nunca aprenderam a ler para não correrem o risco de ser influenciados.

A menos que o erro tenha sido voluntário, e aí a única coisa que nos cabe dizer é que, num país de escritores analfabetos, quem se finge de ainda mais analfabeto, além de batoteiro, é rei.

Mas adiante. Não é preciso, como nós, ter um doutoramento em literatura para reparar nas semelhanças entre esta obra e uma outra, publicada já há algum tempo, por um tal de Eça de Queirós, provavelmente admirador do romance Equador, porque em tudo imita o seu estilo.

Trata-se então desde logo, este Eça Agora, não de um plágio, mas de sete plágios – ou, se quisermos, catorze plágios. Só que não há crime perfeito. A coisa começa bem, com um Carlos da Maia, um Afonso da maia, mas depois descamba, pois as personagens nem sequer correspondem ao objecto original concebido há sensivelmente um século, ou seja, cem anos. De ver portanto que não se trata da obra tal e qual, mas sim do relato de uns herdeiros directos e/ou indirectos, em tudo parecidos com os originais, mas diferentes.

Dâmaso Salcede continua a revelar-se a personagem secundária mais conseguida, sendo mesmo promovido a barão, ou a conde, de Mehrscheisse, palavra estrangeira, de origem alemã, que embora evoque outras paragens, lembra muito, muito curiosamente, paragens e aragens bem portuguesas. Poder-se-ia dizer que a Mehrcheisse de Dâmaso, aliás Damásio, Salcede, reflecte bem o estado das coisas.

Dos autos consta também uma jovem Lara Marlene, cujo pai não é claro se pagou ou não dez milhões para saldar uma sua dívida, contraída quiçá enquanto era namorada de Carlos da Maia, antes de o ter tentado atropelar, pelo menos.

Até à data, impossibilitados de fazer os testes de ADN, porque não é fácil testar duas personagens imaginárias, desconhecemos se Maria Hermengarda é ou não irmã de Carlos da Maia. Por “à data” entendamos a página 299, infelizmente não conseguimos atempadamente concluir a leitura do romance para a incluir nos autos, faltando-nos neste momento doze páginas, ou seja, o equivalente literário a 175% de derrapagem nas custas da reparação do metro da Praça do Comércio, mais coisa menos coisa. O romance remete o resultado dos testes para o CSI – ou Ci eSse Ai – o que atesta a plurissignificação e intertextualidade do dito.

Um outro protagonista do livro parece ser um tal de… Por… Portugal. Portugal? Não verificámos ainda se consta da lista de procurados. O mais provável é este Portugal tratar-se de um pequeno malandro, capaz de todas as patifarias. Ou não. Ao longo do livro fala-se muito dele, e até é sugerido que é o pais (sic) das Laras Marlenes e dos Antónios Maleitos e das Zizinhas Borralhos e dos Dinos Palmas Cavalitos. Mas, para além de parecer paternidade a mais, tem um erro de português (mais um): deveria escrever-se o pai e não o pais, e mesmo isso, como tudo isto neste Portugal (o do romance, bem entendido) parece poucochinho, deveria mesmo ser um í surdo: um paí, e já é ser muito generoso.

Mais acresce acrescentar aos autos que, neste Eça Agora, é muito difícil identificar as partes do corpo, ou seja, quem retalhou e tratou que partes do corpo, porque foram mui bem cosidas, sem estranhezas de tom, ritmo ou fluência narrativa, mérito atribuível decerto sobretudo aos serviços de reprografia, e, além disso, os nomes nas epígrafes de cada capítulo estão trocados. É certo que há um fólio a indicar as autorias, mas quem será tanso ao ponto de acreditar nestes figurões? Na volta, ao dizer que o capítulo V é da Sicrana e o VI é da Beltrana, estão apenas a arranjar-se álibis uns aos outros.

Autorias? Nós diríamos antes malfeitorias. A própria nota de contracapa o admite: “Certamente, o Eça escreveria melhor, mas não diria pior.” Canalhada anti-patriótica, todos – e referimo-nos aos quinze!

Mais acresce acrescentar que não achámos graça nenhuma, por passarmos férias em Cancun e Armação de Pêra, e gostarmos, quando os autuados a dada altura escrevem, com acinto:
“E Carlos, na mais negra das depressões (…) Tudo lhe era indiferente. De Cancún, seguiu para Armação de Pêra. Queria, de facto, sofrer.” (297)
Tão pouco nos agrada que digam:
“- Mas que hei-de fazer – inquiriu João da Régua. (…) e viver hoje em Portugal, entre louvores a Salazar e a ostentação dos novos-ricos, podes crer que não é coisa fácil.” (133)
O respeitinho é muito bonito. Aliás, é preciso não esquecer que, segundo alguns primeiros, os escritores são engenheiros das almas.
Já indício grave nos parece a seguinte indicação:
“- A propósito… Que raio de ideia foi aquela de tentares atropelar-me? (…)
“- Carlinhos, eu quis atropelar-te. Mas foi com um Bentley! Se isso não é amor, é o quê?” (237)
Até porque aqui já não nos parece haver sátira, mas realismo socialista. Afinal o carro é a única arma com a qual podemos matar o cônjuge ou o vizinho sem incorrermos no risco de sermos presos. Achamos que este é um muito mau exemplo a dar às crianças e ao povo.

Enfim, que mais resta dizer? Nunca foi feito em Portugal um livro como este* – a catorze mãos – com escritores que se divertem e nos divertem a brincar – muito a sério – com a literatura.
E se reincidentes são, só duas coisas restam: ou prendê-los, se aí estiver a Polícia; ou então, que remédio, lê-los e deixarmo-nos levar (presos?) por este Eça Agora. (Sim, com cedilha.)


* A editora Cristina Ovídio corrige uma, duas vezes, dizendo que já é o terceiro livro do bando.

Rui Zink / Outubro 2007

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

ARS LITTERARIA (5) : Rui Zink no confessionário...


O meu caso com o mercado


O mercado? Sempre nos demos bem. Sempre tivemos, perdoem-me o despudor, um bom comércio carnal, satisfatório q.b. para ambas as partes.

Eu e o mercado! Chão que já deu uvas, e agora dá vassoura de bruxa, que é como no sempre pitoresco Brasil se designa a filoxera, a doença em forma de mosquito que ceifa a vida à vinha.

O que mais posso dizer? Talvez que – passamos muito bem um sem o outro. É quase um acordo que temos. Eu não lhe cedo às leis, ele não me reconhece cidadania…

É justo.

Mas, se hoje em dia o mercado e eu andamos de candeias às avessas, um tempo houve em que, confesso, tentei escrever para ele. E queixas, devo dizer, se outros têm (quem é quem tem sempre detractores), eu tenho nenhumas. Até porque quando me aprocheguei, ele, afável, retribuiu-me a gentileza e inclusive mostrou-se disponível para inquirir – pessoalmente! – se por acaso não haveria uma vaga para mim no Ministério do Comércio Literário.

Infelizmente (e reconheço que a culpa é sobretudo minha) na véspera da assinatura do contrato apanhei uma bebedeira de caixão à cova. A agridoce ironia é que estava precisamente a celebrar a minha entrada no mercado e a fazer brindes de próspera e duradoura colaboração. E ainda dizem que brindar com água é que dá azar.

O resultado, como acontece nestas coisas, não foi dos melhores. Cheguei atrasado logo no primeiro dia. E, como não fora dormir a casa, apareci desgrenhado, sujo, a gravata em desalinho, pés a cheirar a peúga usada (sempre transpirei muito dos pés, suponho que é emblema da minha proverbial ligação à terra) e, para cúmulo, crostas de vomitado nos colarinhos da camisa.

Obviamente, fui posto na rua em três tempos, e o mercado (não o censuro) guardou algum rancor, até porque já tinha empenhado a sua palavra – a mesma que lhe agradeci traindo-a – em círculos que, para bom entendedor meio eufemismo basta, não gostam mesmo nada de sofrer desapontamentos.

Rui Zink
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segunda-feira, 10 de setembro de 2007

ARS LITTERARIA (4) : (Re)Visitação de Miguel Torga na BNP


Tor(g)a!, Tor(g)a! Tor(g)a! - homenagem a Adolfo Rocha (1907-1995)


É hoje inaugurada, pelas 18h, na Biblioteca Nacional de Portugal, a principal exposição comemorativa do centenário do nascimento de Adolfo Rocha (1907-1995), médico para os seus pacientes, escritor Miguel Torga, para os seus leitores e para a posterioridade.

Mais ainda do que os livros de poesia e de contos, pelos quais é sobejamente conhecido, vale a pena ler o seu Diário, que é uma espécie de autobiografia em 16 volumes, em que a prosa é alimentada pela poesia e vice-versa, mas acima de tudo e simultaneamente uma reflexão-crítica e um testemunho consciente e informado da nossa história recente, com particular enfoque no salazarismo, do qual foi destacado opositor.

A presente exposição não se esgota na obra conhecida, nem tão pouco na menos divulgada, mas visa também revelar a dimensão do homem íntegro que foi Miguel Torga (pseudónimo que adoptou a partir de 1934, explicitdo na sua obra A Terceira Voz, sendo o pronome em homenagem a dois grandes vultos literários, Miguel Cervantes e Miguel de Unamuno, e Torga por identidade com uma urze da montanha existente na sua terra-natal (S. Martinho da Anta, no concelho de Sabrosa, distrito de Vila Real, em Trás-os-Montes)

Transcrevendo:

«Promovida pela Direcção Regional de Cultura do Norte e comissionada por Carlos Mendes de Sousa, esta exposição, que percorrerá várias cidades de Portugal e Espanha, é um dos elementos mais importantes do programa nacional de comemorações do centenário do nascimento deste nome maior da literatura portuguesa.
Os materiais ora apresentados correspondem a uma parte substancial do espólio do autor, doado em 2004 pela sua filha (Clara Rocha) a Coimbra para que ficasse na casa-museu recentemente inaugurada, incluindo raríssimos manuscritos de poemas conservados pelo poeta, dactiloscritos com emendas à mão de prefácios e contos, 1ªs edições – algumas ainda com o nome civil antes do aparecimento do pseudónimo em 1934 –, traduções para diversas línguas, bem como, cópias de cartas do autor para diversas personalidades. A exposição mostra ainda 2 retratos de Miguel Torga (por Guilherme Filipe e Isolino Vaz) e inúmeras fotografias.


Síntese biobibliográfica:
Adolfo Rocha nasce na aldeia de S. Martinho da Anta em 1907. Concluída a instrução primária (1917), entra para o Seminário de Lamego de onde sai em 1920 para trabalhar na fazenda de um tio paterno no Brasil, local onde escreve os seus primeiros versos (1924). Em 1925 regressa a Portugal e conclui em 3 anos os sete de liceu, matriculando-se em 1928 na Faculdade de Medicina de Coimbra. Durante o curso (1928-1933) funda a revista Sinal e colabora na revista Presença com a qual vem a romper em 1930. Em 1934 adopta o nome literário de Miguel Torga com o qual assina A Terceira Voz. Em 1936 funda a revista Manifesto e entre 1937 e 1939 publica 4 livros de A Criação do Mundo cujo último volume (O Quarto Dia) foi apreendido e determinou a sua detenção no Aljube. Em 1940 casa com Andrée Jeanne Françoise Crabbé e estabelece consultório em Coimbra. São dos anos de 1940 a 1944 alguns dos seus textos em prosa mais conhecidos: Bichos (1940), Contos da Montanha (1941), Um Reino Maravilhoso (Trás-os-Montes) - Conferência (1941), Rua (1942), O Senhor Ventura e Novos Contos da Montanha (1944). Entre 1945 e 1991 publica 7 obras em prosa, 2 peças de teatro e 9 obras de poesia. Os 16 volumes do seu Diário são publicados entre 1941 e 1993.
O seu empenhamento cívico leva-o a participar nas campanhas de candidatura à presidência da República do General Norton de Matos (em 1949) e de Humberto Delgado (em 1958). Recusa o prémio Almeida Garrett que obteve em 1954 e realiza múltiplas viagens pela Europa (1950, 1953 e 1958), Turquia, Norte de África (1953) e Brasil (1954). Proposto como candidato ao Prémio Nobel da Literatura em 1959 (e de novo em 1978), virá a recusar o Prémio Nacional de Literatura em 1969, aceitando neste mesmo ano o Prémio literário Diário de Notícias. Distinguido com vários prémios internacionais (como a Condecoração de Oficial das Artes e Letras, da República Francesa, em 1989) é alvo de múltiplas homenagens e distinções nacionais entre 1978 e 1992, destacando-se as dos 50 anos da sua actividade literária (1978), o prémio Camões (1989) e o prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores (1992), entre outras.»
Cf. http://www.bn.pt/agenda/evento-torga.html

A exposição decorre entre 10 de Setembro e 12 de Outubro, podendo ser vista das 10h às 17h. Entrada livre.
Local: Biblioteca Nacional de Portugal - Campo Grande, 83 - Lisboa. Metro: Entrecampos

In memoriam ephemera
(programa das comemorações): http://drcn.do.sapo.pt/

In memoriam perennis
(antologia, bibliografia, biografia, fotos, etc.):
Miguel Torga (1907-1995): a voz do chão / Teresa Sobral Cunha
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terça-feira, 4 de setembro de 2007

ARS LITTERARIA (3) : Anti-barb(ár)ie azul de Cristina Vieira


Subsídios para a história da literatura e do teatro


Ars Litteraria
orgulha-se de vos apresentar um texto de CRISTINA VIEIRA (escritora, poetisa, professora, etc.), que a nosso pedido aceitou (re)publicar aqui o seu excelente Prefácio ao texto dramático O barba-azul : Ken kills the barbies?, também da sua autoria, editado pela Apenas Livros (v. http://www.apenas-livros.com/ ).

Este, é sem dúvida, mais do que um excelente aperitivo para o prato principal (a própria peça que o suscitou), que, pela sua abrangência e profundidade de análise, ultrapassa claramente o texto cénico sem deixar de incidir sobre ele. Na verdade, entendemos destacá-lo por se tratar, não apenas de uma "mera" apresentação da peça teatral, mas por conter uma notável síntese histórico-crítica do universo literário dos "contos de fadas" e das suas correspondências com o fenómeno barbie, sem esquecer a sua contextualização psico-sociológica, entrosando as perspectivas sincrónica e diacrónica de modo a favorecer uma percepção crítica ao leitor/espectador/consumidor.


Fica desde já o desafio de o lerem atentamente neste formato, ou mais comodamente, pela aquisição do próprio livro, e de o comentarem.



PREFÁCIO


What is greater about this country is that
America started the tradition where the richest
consumers buy essentially the same things as
the poorest. You can be watching TV and see
Coca-Cola, and you can know that the
President drinks Coke, Lis Talor drinks Coke,
and just think, you can drink Coke, too. A
Coke and no amount of money can get you
better Coke that the one the bum of the corner
is drinking. All the Cokes are the same and all
the Cokes are good. Lis Taylor knows it, the
President knows it, the bum knows it, and you
know it
ANDY WARHOL



O que haverá de comum entre a personagem Barba Azul dos contos de fadas franceses do século XVII e o boneco Ken fabricado pela empresa de brinquedos Mattel em 1960? O que haverá de comum entre a personagem feminina anónima que não consegue resistir a uma tentação, a mulher do Barba Azul, e a boneca mais coleccionável do mundo, a Barbie? Todos são universais e famosos, conhecidos do grande público consumidor, acessíveis a qualquer bolso e proporcionam bem estar, tal como a Coca-Cola, permitindo uma entrada de acesso fácil ao mundo da fantasia e do sonho.

Estas personagens/objectos representaram um marco na história de uma época e de uma sociedade específicas, que os distinguiu, pelo seu carácter inovador na data em que surgiram, mas também eles passaram a ser partes constituintes de uma tradição literária/icónica que os foi inscrevendo no tempo.

Vários contos de fadas de tradição oral como O Chapéuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, A Gata Borralheira, entre outros, foram passados à escrita por Charles Perrault no século XVII. No entanto, Bruno Bettelheim na obra Psicanálise dos Contos de Fadas considera que o conto O Barba Azul, para além de não ser um conto de fadas, pois só a chave com sangue indelével é mágica, sendo ela que denuncia o facto da jovem esposa de Barba Azul ter entrado no quarto proibido, também afirma que o conto foi inventado pelo autor, pois, que ele saiba, não há antecedentes directos desse conto em contos populares. Na altura, o género emergente dos contos de fadas fez moda entre 1685 e 1700. Mas também ele foi desprezado pelos Antigos por constituir um género menor. Foi Perrault, advogado do partido dos Modernos, quem veio em defesa destes contos de tradição popular francesa, que ele ironicamente apelidou de “bagatelles”. Em grande discussão académica quis elevá-los à categoria dos grandes géneros clássicos, como a epopeia e a tragédia, defendidos pela Academia Francesa, alegando para tal cumprirem estes a mesma função das grandes obras clássicas – instruir divertindo. Hoje, os contos, assim como as personagens que os habitam, fazem parte de um reportório dito “clássico” que vai sendo revisitado de tempos a tempos.

Também a boneca Barbie, nascida em 1959 pelas mãos de Ruth Handler, e o seu noivo Ken fizeram furor numa sociedade que sendo a fábrica de grandes mitos/ícones também os reduzia à categoria de objectos, produzidos em massa para uma sociedade consumista. Esta sociedade – tipo viu-se reflectida numa Cultura Pop que a TV ajudou a popularizar: mitos como Marilyn Monroe, Liz Taylor, Elvis Presley co-existiram e existem na mesma prateleira com objectos como a Coca-Cola, a Pepsi-Cola, notas de dollar, latas de sopa, pacotes de cigarros,hamburguers e sanitas. Eles foram simultaneamente os heróis, os símbolos de uma nova geração, mas também eles foram as “vítimas” dessa mesma sociedade que os nivelou e os reduziu à mesma categoria indistinta – a de objectos, de embalagens apetecíveis. As serigrafias de Andy Warhol, as obras de Claes Oldenburg construídas com material plastificado, como por exemplo “soft toilet”, e, claro, a boneca Barbie, a chamada “sexy symbol de plástico” são alguns dos símbolos máximos deste “barbie world” onde “life in plastic, it’s fantastic!” como diz a letra da canção Barbie Girl dos Aqua.

As primeiras edições dos contos de Perrault foram feitas avulso no Tipógrafo do Rei, no jornal de época Mercure Galant, etc.; a colectânea, com todos os contos já incluídos, Histoires ou Contes du Temps Passé, já foi editada pelo Tipógrafo Claude Barbin e por algumas edições de literatura de cordel, a chamada “Bibliothèque Bleue” ou “Littérature de Colportage”. Os livros da chamada “Bibliothèque Bleue” eram de pequeno formato, muito baratos e distribuídos por retroseiros e apregoadores em toda a França que, de porta em porta, tanto vendiam laços e alfinetes como livros. A sua cientela de aldeia eram os camponeses, os comerciantes e a burguesia de província. Estes eram produzidos em papel azul que servia habitualmente para embrulhar pães de açúcar e eram ilustrados com gravuras antigas sobre madeira. A “Bibliothèque Bleue de Troyes”, iniciada em Troyes, em 1602, pelo tipógrafo Jacques Oudot, a mais conhecida e representativa da cultura popular da época, tinha no seu corpus obras de carácter didáctico, como almanaques, guias de medicina e de agricultura , manuais de boa conduta, mas também livros de piedade e de divertimento, como canções, romances de cavalaria, romances sentimentais e recolhas de contos. Na realidade, foi só no século XIX, com a segunda vaga dos contos de fadas e com o romantismo no seu auge, que os contos de Perrault , de Mme d’Aulnoy e de Mlle L’Héritier foram mais divulgados nestas colecções de índole popular, já com um público mais alargado. Os contos de fadas reganharam uma nova vitalidade e dimensão com a chegada do cinema de animação, quando Walt Disney em 1937 produziu o primeiro filme animado nos E.U.A., Snow White and the Seven Dwarfs, argumento baseado na história de Jacob e Wilhem Grimm, que foi um verdadeiro êxito de bilheteira. Outros lhe seguiram: A Bela Adormecida, A Gata Borralheira, A Bela e o Monstro, etc..

Também a boneca Barbie, lançada na “New York City’s Toy Fair” em 1959, conheceu de imediato um enorme sucesso de vendas entre o público mais jovem. Nas décadas seguintes, vários golpes de marketing foram-lhe garantindo o sucesso de vendas: outros companheiros foram criados para a boneca, entre os quais o seu noivo Ken; em 1985 vários criadores de moda da alta costura desenharam roupas para a boneca, etc. Curiosamente, a venda desta boneca baixou drasticamente quando a empresa em 12 de Fevereiro de 2004 anunciou que o romance entre “the perfect plastic couple” tinha acabado, à semelhança do que se passava entre os casais de actores em Hollywood. Talvez a fantasia deva ser sempre fiel a si mesma!

Hoje, os contos de fadas e os seus heróis e heroínas, à semelhança da boneca Barbie e do seu noivo, pelo lugar de destaque que ocupam no imaginário colectivo, continuam a ser revisitados na literatura, no cinema, no teatro, na dança, nas artes plásticas, mas também em artes ditas menores, como a publicidade, por exemplo.

Nesta “aldeia global” em que vivemos, à crescente pluralidade de formas de expressão artística, junta-se a necessidade da interpenetração das mesmas, numa tentativa de explorar o desconhecido, mas também de guardar os registos do passado, no caminho da arte total.

É nesta senda da necessidade de actualização do passado, de adaptação à realidade actual de uma sociedade “plastificada”, globalizada, a vários níveis, que propomos a reescrita deste conto do século XVII, procurando, desse modo, ganhar o interesse do público em geral, e do público jovem em particular, mas também procurando divertir-nos muito.


Como surgiu, afinal, a criação deste texto colectivo escrito por alunas e professora?

Os alunos começaram a chegar ao Clube de Teatro da Escola Secundária de Miraflores até perfazer um total de onze alunos: nove raparigas e dois rapazes. A escolha do texto a apresentar na “Semana da Escola” e na “Mostra de Teatro de Oeiras” tornava-se difícil. E como já diz o povo “A necessidade aguça o engenho“. E foi precisamente dessa necessidade em adaptar um texto à realidade do grupo que foi escolhido o conto em questão, tendo-se procedido às devidas adaptações não só de carácter genérico, mas também temático, de acordo com linhas de escrita e de representação da época, de acordo com mensagens que se pretendiam veicular, de acordo com o público que se pretendia atingir, mas também de acordo com o prazer que a própria representação do texto pudesse proporcionar aos actores e actrizes que o representavam. Assim sendo, as alunas, de acordo com as personagens que lhes foram atribuídas (cada uma deveria representar um pecado capital), criaram um texto individual que a professora compilou, adaptou e transformou. Ao longo dos ensaios da peça, e dos dois Ensaios Públicos da mesma que aconteceram durante a “Semana da Escola”, foram-se fazendo ajustes ao texto, aproveitando-se sugestões dos alunos de acordo com as dificuldades sentidas e com as ideias que iam surgindo durante o trabalho prático dos ensaios: troca de papéis, aproveitamento de novas ideias para indicações cénicas, feitura de pequenos cortes ou alterações na fala de algumas personagens; um pouco do que se poderá chamar o “work in progress”.


Como se procedeu, então, à actualização deste conto?

Nas últimas décadas, tem-se procurado revitalizar o género teatral e em particular o subgénero teatro musical, veja-se o sucesso dos musicais de Andrew Lloyd Webber Evita, Cats, The Phantom of the Opera, o primeiro e o último adaptados recentemente para o cinema musical. O cinema musical também está a conhecer um novo revivalismo, com filmes como Moulin Rouge de Baz Luhrmann ou The Dreamgirls de Bill Condon, entre outros. Esta moda também está a querer criar raizes em Portugal e em particular no teatro, basta verificarmos o sucesso dos musicais de Filipe La Féria Amália, My fair Lady e Música no Coração.

Procurando ir de encontro do “gosto” do público da época e dos actores do grupo de teatro, a peça reescrita procura, também ela, inscrever-se nesta nova vaga do teatro musical, mas também vive da mistura dos géneros, marca da sociedade actual, como foi referido anteriormente: Assim, para além de pequenos apontamentos musicais que percorrem a peça, com recurso ao uso da canção e da coreografia, houve a necessidade de jogar entre o registo da tragédia e da comédia, imprescindível à expressão da realidade múltipla e global da sociedade actual. Teremos o que se poderá catalogar de tragi-comédia com apontamentos musicais.

Para atribuir um carácter de veracidade à peça, aproveitámos a universalidade que constitui o comportamento das personagens do conto de Perrault- ainda hoje existem mulheres curiosas e homens prepotentes e maus- mas tivemos que datar o texto e fixá-lo no espaço, o que também constitui uma das características do género teatral: segundo as regras clássicas da tragédia, deveria haver unidade de tempo (a acção passar-se em 24 horas), de acção e de espaço (a acção condensada, deveria decorrer toda no mesmo espaço).

A acção passa-se no ano de 2007. Há várias marcas no texto da referência ao ano em causa, mas a mais marcante e aquela que denuncia o mundo da comida de “Plástico” está presente numa fala da personagem que simboliza o pecado da gula – a barbie Gila quando esta diz:“ - A propósito, já viu o novo filme de Richard Linklater Fast Food Nation? Fui vê-lo em estreia a New York, agora em Janeiro”. Também a acção principal da peça ocorre no tempo de 24 horas: o tempo que decorre entre a partida e a chegada de Barba Azul a casa,pela madrugada.

Quanto ao espaço seleccionado, não foi por acaso que escolhemos o Palácio da Pena em Sintra. Precisávamos de uma casa abastada, pois o Barba Azul era um homem de muitas posses, mas também de um monumento que tivesse uma torre, uma vez que no conto, a irmã do Barba Azul tem que subir a uma torre, sendo este o momento de maior tensão dramática da peça. Também escolhemos este espaço por ser um lugar “famoso” (o lugar ideal para ser habitado pelo popular “casal de plástico”), com tradição religiosa (o lugar adequado para a elevação e queda dos sete pecados capitais representados pelas sete barbies), isolado, misterioso, pleno de vegetação luxuriante (o lugar favorável ao enredo da peça, onde se conta a história de um assassino em série que escolhia um pequeno quarto do seu palácio para guardar as mulheres que degolava). A acção principal decorre toda neste espaço, de múltiplas galerias.

Quanto à selecção do tipo de personagens, segundo a tragégia, as personagens deviam ser de categoria elevada e segundo a comédia deviam ser de estirpe baixa. Todavia, no texto, se temos personagens elevadas, devido à sua posição social, o comportamento das mesmas não corresponde ao seu estatuto: Ken é um homem abastado, mas também ele é manifestador de um comportamento de baixo nível, apresentando- se como um assasino em série; por outro lado, temos a mulher de Ken e a irmã, as sete barbies e o amigo Romeu, todos eles aparentemente de classe média/alta, representando as barbies o que de mais baixo existe em termos de moral humana, os sete pecados capitais, o que está conforme à tipologia da personagem definida para a comédia.

Ainda na tragégia clássica, havia sempre a introdução do elemento coro, necessário para comentar a acção e ajudar ao avanço da mesma. Nesta peça, o coro das mulheres mortas surge num momento de grande tensão dramática, o momento em que a mulher de Ken descobre o quarto escuro com as mulheres assasinadas pelo marido: o coro intervém, numa primeira vez com uma mera função lúdica: utiliza-se a canção adaptada de Rui Veloso “Não há Estrelas no Céu” para as mulheres mortas “gozarem” o facto de Marianne se sentir completamente perdida, mas o coro, no último verso da canção transporta toda uma mensagem profética, que nem é perceptível à heroína, quando avisa que a sua salvação será a música “Se não fosse o Rock and Roll/ o que seria de si”, pois é o músico Romeu que, no final da peça, irá salvar Marianne da ira do marido. A segunda intervenção do coro das mulheres mortas vai no sentido de adensar o momento de tensão: este intervém para exacerbar o medo na frágil personagem aterrorizada. Mais uma vez a perversidade é jogada como arma na voz do coro. Logo a seguir às duas intervenções do coro, temos a cena em que Marianne parece enlouquecer, evocando-se as palavras de Ofélia, namorada de Hamlet num momento de loucura “- Good night, ladies; good night, sweet ladies, / good night, good night”. A presença do coro no texto é envolvida numa “babel” linguística que se move entre a letra de uma canção portuguesa, um poema francês e uma fala inglesa, procurando-se, desse modo, o aturdimento do leitor/público, ao qual lhe é permitido apenas o prazer do texto..

Não obstante,afastando-nos dos dois grandes géneros clássicos, também esta peça nos remete para o universo primitivo do teatro religioso medieval, a avaliar pela falta de densidade psicológia das personagens. Não se regista qualquer evolução das mesmas ao longo do texto. O facto de Ken e das barbies no final serem castigados, só por si, não é sinal de evolução das personagens dentro do texto. Estas apresentam-se antes como personagens- tipo, representando cada uma um vício, mostrando-se como embalagens vazias que vão desfilando na “passerelle” como manequins que avançam, rodopiam e retrocedem perante o “olhar” do público. A título de exemplo, mencione-se a fala central de Gila à mesa, em que esta tanto faz a crítica da comida de plástico como faz o elogio da mesma às amigas, num discurso perfeitamente contraditório.

A maioria das acções da peça imitam acções reais do dia a dia, o que é uma das características da comédia: o marido que se ausenta para o trabalho e deixa a mulher sózinha; as amigas que vêm a casa da jovem esposa para vasculhar o novo lar; o jovem músico que se apaixona pela mulher de Ken quando vê a sua fotografia e a socorre do marido violento em momentos de apuro. Aparentemente, nenhuma atitude dos heróis emana de uma presença dos deuses, que tanto os aconselham para o bem,como os instigam para o mal, o que é norma da tragédia clássica: Ken decide matar as suas mulheres só porque elas são curiosas e lhe desobedecem. Poderiamos, todavia, considerar a chave mágica que denunciou a mulher de Ken como a presença desse mundo superior no texto, mas deixamos essa interpretação ao leitor. Há ainda a considerar que na peça há vários momentos de intensa tensão dramática em que a catharsis (processo usado na tragédia clássica que serve para purgar as paixões como a piedade e o terror, precisamente para afastar a presença de paixões mais perigosas como a luxúria, a cólera, o orgulho) é posta em prática. Por exemplo, o momento em que as barbies à volta da mesa escutam a descrição nojenta do filme Fast Food Nation feita pela barbie Gila, e reagem com a expressão “Que horror!” e também o momento em que Ken, ignorando o apelo da jovem esposa que se ajoelha a seus pés, se prepara para a matar. Também nestes momentos de grande tensão é introduzido outro processo característico da tragégia, o chamado “comic reliese”. Para aligeirar o primeiro momento, a barbie Jéssica desafia as amigas a cantar e a dançar uma música de cabaret, usando uma linguagem cómica para o fazer e no segundo momento, o “super garanhão” Ken, assim que se apercebe de que um homem está prestes a entrar no palácio, para salvar a sua mulher, procura esconder-se como um cobarde, acabando por ser morto com uma pancada de guitarra na cabeça. Toda a peça é percorrida por diálogos que suscitam a comicidade, por personagens que, pela suas características, são transportadas ao ridículo: a mulher do Ken, por exemplo, com a sua leviandade extrema, e por situações também elas risíveis, tal é o caso em que Gila, o monstro da comida de plástico, procura aterrorizar a afectada amiga Betty.


Quanto ao final da peça, ele é quase simultaneamente trágico e cómico, pois, respectivamente, temos o assassinato de Ken em palco, imediatamente seguida do casamento de sua mulher Marianne com Romeu, precisamente o assassino do marido.

Segundo os fundamentos da doutrina clássica, os fins da poesia deviam ser o divertimento e a moral. De facto, há uma moralidade que se pode extrair da peça: no momento do casamento do jovem casal, as barbies, que simbolizam os sete pecados capitais, não suportando a felicidade da amiga, rebentam, à semelhança dos gnomos quando não conseguem atingir os seus fins maldosos. E o assassino em série Ken é assassinado com uma guitarra, pelo músico Romeu, o que poderia ser entendido como o fim clássico do castigo dos vícios, ou seja, sobre a maldade vence o amor e a arte, simbolizada na guitarra. Todavia, essa moralidade poderá ser contestada pela ambiguidade presente no facto de que a mulher desobediente e curiosa é que sai victoriosa, não sendo ela um modelo de virtude, já que na peça até se acentua o carácter fútil da personalidade da mesma:a mulher romântica e deslumbrada com festas e riquezas que desobedece ao marido para satisfazer o seu instinto de curiosidade e que maltrata a sua empregada. Talvez não haja uma única moral a tirar, talvez haja muitas a encontrar e talvez a única finalidade da peça seja o divertimento retirado do prazer experimentado pelo rodopiar festivo dos sete pecados capitais na casa assombrada, cena central em que as barbies visitam a amiga Marianne, também ela “barbie”, a cena, sem dúvida, mais movimentada e mais divertida, com diálogos provocadores, contraditórios e viperinos, cenas repletas de sensuladidade, canções e danças até ao cabaré. A única personagem verdadeiramente virtuosa nesta peça é uma personagem secundária – Ana- a irmã da fútil Marianne, a que usa a sabedoria popular para se exprimir, através do recurso sistemático ao provérbio, a que consola, a que aconselha, a que permite o salvamento da irmã da fúria assassina do marido. E por fim, que final consolador temos para ela ? Apenas a felicidade de assistir à felicidade da irmã no momento do casamento desta. A ela nada lhe é dado pela sua conduta virtuosa, mas a solidão. E se o amor e a música vencem, estes fazem-no à custa de quê? De uma desobediência e de um assasinato.

Sobre os temas desta peça, o leitor/público, depois de ler o título, de identificar as personagens e de relembrar o que elas representam no seu imaginário, poderá começar a adivinhar os temas nela implícita – a impotência do herói masculino num mundo feminino? A fantasia já não é o que era?. Depois de fazer a leitura da lista das personagens da peça na primeira página da obra/ ou de observar o guarda-roupa das barbies durante a representação (cada barbie é identificada na camisola com um pecado capital que corresponde à personalidade de uma determinada personagem da banda desenhada), poderá ficar ainda mais nítida a possibilidade de leitura dos temas a encontrar – O mundo da fantasia é pervertido pelo real? As “barbies” representam os vícios do mundo de plástico, da sociedade de consumo? Todavia, toda a estrutura do texto, pelo que foi sendo dito anteriormente, se alicerça em “terreno movediço”, em “teias” de uma moralidade aparente, onde a contradição e a ambiguidade circulam e se desenvolvem, para ludibriar a expectativa de um leitor/espectador que procure a moralidade fácil.

Quando a forma do texto, pelo que foi sendo dito, ela própria cria e anula nela própria os princípios que procura sustentar, temos como único fim a estética do prazer, a estética de uma era chamada de Pós–Moderna (que até no tempo de Perrault teve outra designação aparentada, o Barroco) nomeadamente aquela em que o seu símbolo máximo é a embalagem esvaziada do seu conteúdo, da sua mensagem a veicular. A sua finalidade última parece ser a do prazer do texto, o texto que pelo seu jogo incita o público à diversão, estabelecendo-se uma dependência mútua entre texto e público, tal como a entende Roland Barthes na sua obra Le Plaisir du Texte datada de 1973, quando afirma que o texto é um objecto “fétiche” e logo depois acrescenta “ce fétiche me désire”. Também Jean-François Lyotard, no artigo “Moralités postmodernes” publicado no volume 27, nº1, em 1994, na revista Études Littéraires, considera que o niilismo avança a par com o desenvolvimento. A cultura contemporânea apropria-se de todos os objectos, de todas as formas, mesmo de todas as paixões, representa-as para as fazer circular. Num ciclo sem fim. Dá-os ao divertimento de todos. Como se a jubilação estética dos povos fosse o seu fim. Mas “la mise en spectacle” não é um fim, é um efeito, e um meio para o sistema se desenvolver. A violência da aparição é neutralizada pelo colocar em circulação. O sistema faz esquecer o absoluto, e ele esquece esta omissão.

Pensamos ser importante referir que ao contrário de Séneca que escrevia as suas peças para serem lidas, esta peça foi escrita para ser representada, isto é, actualizada duplamente pelo leitor e pelo público.

Indo também na linha de cenografia de muito do teatro que se faz hoje, todo o cenário foi concebido em linhas minimalistas: caixotes amontoam-se para se poderem desmontar. Fomos buscar os tons fortes à Arte Pop: as três cores primárias amarelo, vermelho e azul contrastam com o rosa eléctrico envergado pelas sete barbies. Quanto ao guarda- roupa e acessórios, estes foram desenhados em traços barrocos, procurando-se o exagero das formas, nas saias das barbies e nos coletes dos dois elementos masculinos, mas também a profusão de adereços exagerados que caracterizam cada uma das barbies: máquina de calcular gigante para a barbie avareza, três telemóveis para a barbie Ira, leque, espanador, écharpe com penas, etc. Há também um único objecto avulso no cenário que repousa sobre uma mesa, uma garrafa solitária, que simboliza todo o bric-à-brac existente na casa, marca da sociedade que se poderá pretender ver criticada.


Para terminar, parece-nos importante fazer um pequeno comentário ao título, no intuito de poupar críticas. Não foi por acaso que se utilizou a língua inglesa, a par com a nossa língua mãe. Ela vem marcar o carácter dual, ambíguo, plural de todo o texto. Quanto ao recurso ao uso da letra minúscula, até nos nomes próprios, fizemo-lo quer por transgressão aos códigos de escrita, quer por homenagem a este género menor, o conto, que está na origem da peça em questão, género esse também ele marcado como espaço de transgressão por excelência, onde a fantasia tudo permite. Mas se quisermos trazer alguma leitura moralista a esta peça, o uso da letra minúscula servirá também como meio formal para se fazer a crítica de uma sociedade indiferenciada, onde tudo se reduz à categoria indistinta de objecto, onde os valores deixaram de fazer sentido e se misturam e onde o vencedor é o estupor.

Cristina Vieira


Ficha técnica:
Cristina Vieira [et al.]
O barba-azul : Ken kills the barbies? / Cristina Vieira. Lisboa : Apenas Livros, 2007. (Teatro no Cordel / dir. de Diana Nunes Coelho ; 5)

terça-feira, 10 de julho de 2007

ARS LITTERARIA (2) : Auto das Danações

Quem disse que os livros estão caros, é porque ainda ignora a meritória intervenção social (porque não dizê-lo, dado que as obras do seu catálogo rondam apenas 3 € cada) e, é claro, também cultural, da editora Apenas Livros (pela criteriosa selecção de autores pouco comerciais/comercializados, mas de inquestionável qualidade).

Desta vez o destaque vai para a sua publicação mais recente - o Auto das Danações, do poeta Jorge Castro - uma obra de teatro com cordel (vejam para crer), retomando uma tradição poético-jocosa de crítica social e política, que remonta pelo menos aos autos vicentinos, mas que se prolonga pela commedia dell'arte e pelo teatro de António José da Silva ("O Judeu").


Segundo o próprio autor «(...) a inefável São Rosas, lançou-me, há uns meses atrás, um desafio que consistia em produzir um Auto, à moda de Gil Vicente, mas com a envolvência de personagens da "pós-modernidade". Daí nasceu o "Auto das Danações", a minha obra mais recente, uma vez mais contando com a alegre e interessada edição da Apenas Livros, Lda., que acedeu, até, ao despautério de alinhar numa edição especial [...]. A tanto chegou o espírito de colaboração...»


E no prefácio da obra, abre as hostilidades, sem cerimónias:

«Versalhada em um acto, que o tempo não está para desperdícios que não atem nem desatem. Tendo Gil Vicente como fonte cristalina, fresca e exemplar nessa arte de bem zurzir quem o mereça, apreciando de viés o que o mundo nos mostra e tentando entrever o que ele nos esconde, assim foi concebido este Auto. Será Auto de notícia que, se a vossa benevolência o permitir, ficará para o porvir como retrato a preto e branco, não revelado, isto é, em negativo, deste nosso tempo. Não é todo o mundo – ou até tão só todo este nosso aprazível recanto - feito destas graças e desgraças. Mas muito dele é assim feito, por defeito, por acaso ou por conveniências. De qualquer modo, os retratos foram tirados a personagens da nossa praça, envoltos num caldo de cultura que, também esse, tem tonalidades muito nossas e entranhadas.Há, como se presume, na massa do ilustre sangue lusitano, alguma valentia sorna, contraposta aos brandos costumes – que tanta vez escondem a hipócrita ou cínica violência - que nos moldam e por quem nos deixamos moldar e que, misturados no cadinho da vida, motivam esta tão peculiar forma de estar, sem paralelo mundial – pelo menos, tanto quanto diviso daqui da minha rua…» / Jorge Castro, Abril de 2007"

Deste teatro-poesia de escárnio e [bem] mal dizer, que se presta a ser lido e não "apenas" representado estamos todos necessitados, e por isso aqui fica o desafio aos leitores (o autor gostaria também do vosso feed-back, e por isso nos deixa o seu contacto: jc.orca@gmail.com ).
Por outro lado, sugerimos aos profissionais da arte de representar que não percam a oportunidade de (re)pegar num texto carregado de ingredientes para um grande sucesso de bilheteira (hélàs, a estreia absoluta ocorreu "por Caria"). E, para lá do teatro de "carne e osso", a peça presta-se igualmente à representação com bonifrates, assim como a ser músicada em género de opera bufffa (alô José Eduardo Rocha, se não fizeres tu farei eu, assim o dramaturgo, ou melhor, o comediaturgo, o queira).

Venham mais peças, Jorge! Sem esquecer a poesia, claro está!