ARS LITTERARIA revê-se no projecto ARS INTEGRATA e é parte integrante do mesmo. É um espaço de livre-pensamento e de debate de ideias, não possuindo vinculação a correntes estéticas particulares, nem filiação clubística, político-partidária, ou de cariz confessional, pelo que não assume qualquer comprometimento com os textos e opiniões expressas no seu blog como naqueles que divulga.
Contamos com a vossa colaboração. Para mais informação ver abaixo ou escreva para: arslitteraria@gmail.com

-
Mostrar mensagens com a etiqueta litteratur. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta litteratur. Mostrar todas as mensagens

sábado, 4 de fevereiro de 2012

ARS LITTERARIA (34): As cruzadas vistas pelos árabes


AS CRUZADAS VISTAS PELOS ÁRABES / AMIN MAALOUF




Numa era em que o maniqueísmo ainda prolifera como arma de arremesso político e religioso - e o que é mais grave, ainda se pretende alimentar um "espírito de cruzada" como forma de exercício do poder poder -, são benvindos todos os contributos que possam desfazer mitos e ajudar ao conhecimento dos dois lados da questão numa perspectiva expurgada de preconceitos, que reponha tanto quanto possível a "verdade histórica". Acima de tudo, porque numa guerra, independentemente da maior ou menor justeza das causas, nunca há apenas maus de um lado e bons do outro, sendo que os povos são sempre os grandes sofredores nos conflitos bélicos, além da destruição não raro criminosa do património. Ora, a Paz só pode ser almejada quando houver uma plena compreensão deste mesmo facto.

Amin Maalouf, escritor franco-libanês, membro da Academia Francesa, dando-nos conta da perpspectiva árabe das "cruzadas" numa escrita modelar que funde elementos ficcionais com o resumo de documentos coevos,  procura fazer luz sobre um período marcante da História da Humanidade com consequências que ainda hoje estão presentes, e até em claro recrudescimento. Só por si, isso seria motivo bastante para a sua leitura, porquanto nos vem fazer luz sobre a noção inculcada nos bancos da escola por professores "primários" (na verdadeira acepção do termo), mostrando-nos com fundamento documental uma outra visão das coisas, que nos leva a reflectir e a suscitar uma curiosidade que nos conduza a aprofundar os problemas e, consequentemente, a novas aprendizagens.

Com efeito, o que nos distingue da animalidade em geral, é a nossa capacidade de escrita que conduz à aprendizagem para lá da nossa própria e limitada vivência, e com ela não apenas ao registo de uma memória colectiva, mas, o que é mais importante, ao desenvolvimento da ciência.

Acresce que Maalouf constrói a sua narrativa com inegável qualidade literária, o que faz do seu livro não apenas um objecto de ilustração dos saberes, mas também nos oferece a dimensão do prazer da leitura, numa escrita dinâmica e empolgante, mas sem intuitos manipuladores, antes dando a conhecer a natureza humana dos decisores político-militares nas suas inquietudes e e fraquezas, assim como as consequências dos seus actos. Deste modo, este livro para lá do seu interesse na categoria do romance histórico, afigura-se-nos também com um importante contributo para a Paz.


MAALOUF, Amin - As cruzadas vistas pelos árabes. Trad.de G. Cascais Franco, 12.ª ed., Miraflores: Difel, 2003

domingo, 25 de setembro de 2011

ARS LITTERARIA (31): Mozart par Christian Jacq


Mozart 4 Enigma [2011] / (re)designed by David Zink


JACQ, Christian – Mozart. – 4 vols., [S.l.]: Bertrand, 2006-2007
– 1.º vol: O supremo mago. – ISBN: 9789722514750
– 2.º vol: O filho da luz. – ISBN: 9789722514835
– 3.º vol: O irmão do fogo. – ISBN: 9789722515221
– 4.º vol: O amado de Ísis. – ISBN: 9789722515429



Ars litteraria, recomenda esta excelente obra nas categorias do romance histórico e da biografia como género literário, porquanto nos revela o génio de W. A. Mozart (1756-1791) nas suas várias dimensões (a do grande compositor, mas também a do "menino prodígio" que se fez homem dotado de grandes virtudes e algumas fraquezas) e à luz da vertente que muitos ignoram (pelo menos em toda a suas implicações), a de maçon entusiasta e dedicado e do modo como isso se revelou decisivo na sua obra e na sua vida

O autor desta biografia, monumental mas de fácil leitura, pretende dar a conhecer ao leitor comum, numa escrita viva e apaixonante, uma visão sustentada sobre a personalidade e acontecimentos que rodearam a vida do genial compositor. Acresce que este escritor expõe uma tese "conspirativa" e porventura polémica mas com fundamentação bastante sobre as causas da morte precoce deste "filho da luz" (que obviamente nada tem a ver com a personagem central do filme fantasista Amadeus, de Milos Forman: ainda que a profundidade das suas composições não bastasse, bastaria ler as cartas de Wolfgang Amadeuz dirigidas ao seu pai, o compositor Leopold Mozart, para perceber que ele nada tinha de pateta, ainda que, como muitos de nós, gostasse de praticar o humor brejeiro como ressalta da correspondência com a sua prima Maria Anna Thekla, carinhosamente "Bäsle").

Ora, Christian Jacq, um maçon (tal como Mozart) que é também um prestigiado membro da Academia Francesa e um dos mais destacados egiptólogos, autor de inúmeros livros de divulgação sobre este e outros temas, não pretendeu usar a figura de Mozart para criar um mero texto lúdico ficcional, bem pelo contrário ainda que utilizando como meio de exposição o romance – arte na qual já provou os seus créditos –, apoia-se numa aprofundada investigação solidamente apoiada em documentos coevos.

Claro que a invulgar extensão desta biografia pode demover a priori o público em geral, mesmo os melómanos e literatos mais empenhados, porém asseguramos que os quatro volumes que a compõem lêem-se num apíce, por força da forma narrativa empolgante e da escrita límpida do autor. Assim, o único motivo de “susto” para o leitor só poderá ser o preço da totalidade da obra, mas para esse caso há sempre a excelente solução de recurso às bibliotecas públicas.

4 hands Mozart

Piano Sonata in D major, 4-hands, K. 381 / Daniel Barenboim & Lang Lang

&


Piano Sonata in C major, 4-hands, K. 521 / Martha Argerich & Eugene Kissin

4 great pianists 4 Mozart

-

domingo, 14 de novembro de 2010

ARS LITTERARIA (28): Conceição Caleiro recebe Prémio Pen Club

C.C. Islands (2010) / (re)designed by David Zink



O CÃO DE CONCEIÇÃO CALEIRO


O romance de estreia de Conceição Caleiro – O Cão das Ilhas. Lisboa: Ed. Sextante, 2009 –, acabou de ser galardoado pelo P.E.N. Clube com o prémio «1.ª obra».

Na verdade, Conceição Caleiro, habitualmente dedicada aos campos do ensaio e da crítica literária informada, e animadora de comunidades de leitores, ousou saltar a barricada da escrita criativa, estreando-se na «arte do romance» (Kundera) e fê-lo com grande eficácia, ora certificada no reconhecimento pelos seus pares e pela atribuição deste prestigioso prémio..

Importa notar que a autora é uma conhecida especialista da obra de Clarisse Lispector (tema da sua tese de mestrado), e últimamente da obra de Maria Gabriela Llansol - donde vislumbramos ecos no título ("amar um cão"), no uso do pronome comum "Maria" e julgamos que no conteúdo - muito embora o sentido do trágico colocado na primeira pessoa na obra das mencionadas autoras em Caleriro seja deslocado para a 3.ª pessoa, o "herói".

A obra em questão fora já merecedora de substantivos artigos críticos – nem todos encomiásticos, é certo – mas, ainda assim, a provar que a mesma não passara despercebida e tinha substância literária suficiente para merecer o esforço da análise e o espaço mediático.

Nomeadamente, Helena Vasconcelos, refere no Público que «"O Cão das Ilhas" é um livro surpreendente e poderoso, uma tragédia clássica, com fontes gregas e shakespereanas, a primeira obra de uma autora que escreve com segurança e mestria. A construção da narrativa, a utilização de uma voz (principal) masculina e de três vozes femininas, a passagem de umas para as outras com agilidade e autoridade, a beleza quase onírica de certas imagens fazem deste livro uma obra excepcional, com ecos do Antigo Testamento, da tragédia grega, de Ovídio e de George Bataille. Caleiro tanto descreve cenas prosaicas como outras de uma enorme intensidade erótica e dramática, conjugando o carácter realista e os aspectos simbólicos com extraordinária habilidade e dando espaço para um realismo cruel aliado a um ritmo poético encantatório. [...] Romance sobre a escravidão feminina física, emocional e moral [...] é, também, uma história sobre a repressão e o medo, sobre o exílio e a solidão, acompanhando o ritmo de Rafael, esse "cão das ilhas", leal, bravio e livre».


Já H.G. Cancela, em "contramundumcritica", embora reconhecendo que se trata de um «texto cuidado e ambicioso» discorrendo que «Nesta perspectiva, Rafael é o herói intemporal, o amante ferido e escorraçado que agrega em si as sementes imparáveis da vingança. Anjo e demónio, para resumir, numa atmosfera que ao seu passar se contamina e, a passo e passo, condensa o germinar da tragédia quase anunciada», entende que se trata de um «Livro de errância» de cuja leitura releva «as passagens assumidamente eróticas e carnais, fulgurantes indícios de um mal-estar, cru e cruel, que acode aos sentimentos contraditórios do protagonista – nas suas relações, dir-se-ia não existirem afectos, antes ímpetos, não a calmaria do sentimento puro, antes a febrilidade do animal em sangue».
(in: http://contramundumcritica.blogspot.com/2009/10/maria-da-conceicao-caleiro-o-cao-das.htm )
No Expresso, Carlos Bessa, distingue que «O desejo é o leitmotiv do romance de estreia de Maria da Conceição Caleiro, polifónico, com páginas de um erotismo raro na literatura portuguesa. Desejo que traz, inevitavelmente, outras pulsões, como as do poder e da morte, que adensam a narrativa e a tornam aliciante. Particularmente a que decorre da acção de Rafael e de Pilar, ambos ilhéus, personagens e narradores, sendo ainda dois dos vértices de um triângulo amoroso e parte de um crime passional (o último capítulo é particularmente brilhante)». Mais conclui o mesmo crítico que «"O Cão das Ilhas" tem o dom de agarrar o leitor e o conduzir, debaixo da toada tensa e vibrátil da escrita, entre São Miguel, Paris e Lisboa, mostrando que qualquer vida é um corolário de vozes, de enigmas e de pulsões, cujo fim raramente é cristalino».
(in: http://aeiou.expresso.pt/critica-de-livros-de-15-a-21-de-agosto=f530391 )

Posto isto, aqui fica o desafio à sua leitura.
-

domingo, 11 de julho de 2010

ARS LITTERARIA (26): Homenagem a uma Rosa... Matilde Rosa Araújo (1921-2010)

-

L'Important c'est la rose! In memoriam Matilde Rosa Araújo / David Zink (2010)


MATILDE ROSA ARAÚJO (20.06-1921-06.07.2010)

1) Matilde e eu


História do senhor mar - Foi através deste poema que entrei na primeira fase das minhas relações com a Matilde – a forma como os escritores se dão primeiro a conhecer – pela publicação dos pensamentos/emoções que querem partilhar com os outros. Esta foi a poesia escolhida de “O livro da Tila” para eu dizer, andava ainda na primária, num palco de uma vila (Belas), junto do adro da igreja, na festa anual. Vestidinho branco, como mandava o figurino da época, fitinha no cabelo…

A segunda fase foi a de a ver em minha casa, já amiga de minha mãe, companheiras de acções conjuntas na Ludus (década de 70, para lembrar o direito de brincar, facilitar o acesso ao livro, os primeiros passos da ludoteca/biblioteca).

Numa terceira fase, a partir de 1990, começámos a ser parceiras de iniciativas no Instituto de Apoio à Criança. E a minha foto a declamar o seu poema serviu de tema de paródia.

Sempre me elogiou em tudo o que fazia, deixando-me atrapalhada com tanta benevolência. E não posso esquecer o belíssimo texto que publicou sobre minha mãe, quando ela faleceu, no Jornal de Letras (8.3.94). Generosa em tudo!

Das minhas prateleiras posso tirar "O Palhaço Verde", "O Sol e o Menino dos Pés Frios", "História de uma Flor", "O Gato Dourado", "As Botas de Meu Pai", "As Fadas Verdes" e "Segredos e Brincadeiras" e "A saquinha da flor". Todos com as suas lindas dedicatórias, letra bem desenhada, como ela gostava de fazer. “Gosto de desenhar a letra. A letra tem uma beleza como a palavra tem uma música” (escrevia à mão e depois passava à máquina).

As suas histórias estão cheias de ternura, de ironia, também de realismo sobre a vida de muitas das nossas crianças. Mas também era capaz de escrever: “Limpemos esta floresta que somos. Não queiramos, não consintamos a imolação pelo fogo de muitos de nós. Não consintamos olhar mais a humanidade como vítima de uma morte violenta que quer vingar sabe-se lá que deus menor. Ou sabe-se demais. Porque ela pesa. É de metal” (in: Boletim do IAC - Instituto de Apoio à Criança, n.º 16, Novembro-Dezembro de 1991, p. 1).

Tenho em mãos uma publicação sobre “A Criança e os Direitos Fundamentais”, onde também faço uma reflexão sobre o impacto em Portugal do Ano Internacional da Criança – 1979. Por ela ter pertencido à Comissão Nacional para a organização de iniciativas, pedi-lhe recentemente um depoimento, que ela termina desta forma: “Parto com saudade de um futuro que não viverei mas que tenho a certeza de poder sonhar. Parto com esperança”.

Arrepiei-me toda quando recebi a sua carta. Respeitei o seu sentir premonitório. Mas não fui capaz de lhe responder. E ela se foi com o meu silêncio acobardado.

Quem tem filhos, netos, trabalha com crianças, façam o favor, corram a comprar os seus livros. Só ficam a ganhar!


Este beijinho da Matilde é generalizado a todos, tal era a sua capacidade de receber o Outro, de o aceitar, de perdoar.


2) Matilde e todos nós

Morreu a escritora Matilde Rosa Araújo com 89 anos.

Nasceu a 20 de Junho de 1921, em Lisboa. Licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica (1945) com uma tese em que o jornalismo era objecto de análise académica. Foi professora do primeiro Curso de Literatura para a Infância na Escola do Magistério Primário de Lisboa.

Desde cedo preocupada com os direitos das crianças, tornou-se sócia fundadora do Comité Português da UNICEF e do Instituto de Apoio à Criança.

A sua estreia na literatura teve lugar em 1943 com "A Garrana", uma história sobre a eutanásia com a qual venceu o concurso "Procura-se um Novelista", do jornal O Século, em cujo júri de encontrava Aquilino Ribeiro.

Na literatura para crianças, o primeiro título publicado foi "O Livro da Tila" (1957) - escrito nas viagens de comboio entre Lisboa e Portalegre, onde dava aulas a crianças jovens. Estes poemas foram musicados por Lopes Graça.

Os seus livros foram ilustrados por Maria Keil e outros e, mais recentemente, Gémeo Luís e a João Fazenda.

Em 2009, foi publicada a obra "Matilde Rosa Araújo - um olhar de menina", uma biografia romanceada da escritora com texto de Adélia Carvalho e ilustração de Marta Madureira.
Matilde foi membro da Sociedade Portuguesa de Escritores (actual APE). Ocupava um cargo directivo quando foi premiado o angolano José Luandino Vieira, então preso no Tarrafal. Foi motivo para a PIDE invadir as instalações da Sociedade e demitir a direcção. Estávamos em 1965. Matilde falava disto com a sua habitual ironia ….

Em 1980 recebeu (ex-aequo com Ricardo Alberty) o Grande Prémio de Literatura para Criança da Fundação Calouste Gulbenkian. Em 1991, recebeu o Prémio para o Melhor Livro Estrangeiro da Associação Paulista de Críticos de Arte de São Paulo, Brasil, por "O Palhaço Verde". Em 1994 voltou a receber o Prémio da Gulbenkian pelo livro de poesia "Fadas Verdes". Em 1994, Matilde Rosa Araújo fora nomeada pela secção portuguesa do IBBY (Internacional Board on Books for Young People) para a edição de 1994 do Prémio Andersen, considerado o Nobel da Literatura para a Infância.

O Presidente da República Jorge Sampaio condecorou-a em 2003. Nesse mesmo ano a Sociedade Portuguesa de Autores (SPA) decidiu, por unanimidade, atribuir-lhe o Prémio Carreira (entregue em Maio de 2004), pela sua "obra de particular relevância no domínio da literatura infanto-juvenil ". Nessa altura, ela afirmou que “os jovens lhe ensinaram uma espécie de luz da vida", porque "o seu olhar é de uma verdade intensa e absoluta".

E à Sociedade Portuguesa de Autores voltou, no passado dia 6 de Junho, para que lhe pudéssemos dizer o último adeus.

Pode ser consultada mais informação em:
http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/

CLARA CASTILHO

-

domingo, 4 de julho de 2010

ARS LITTERARIA (25): Rui Zink escreve sobre Luisão

-
Mote e Rima:

«COM LUISÃO, BENFICA CAMPEÃO!»

A propósito do grande tema do momento - a vitória do Benfica no Campeonato Nacional de Futebol (que se lixe a crise, o maior dos clubes portugueses e porventura um dos maiores clubes do mundo em número de adeptos, acabou de dar uma grande alegria a todos estes) - o Diário de Notícias entendeu publicar uma revista especial comemorativa do acontecimento, e, por feliz ideia, convidou vários escritores para deporem sobre os jogadores da equipa vitoriosa, como que a provar que a intelectualidade lusitana não é alheia ao chamado desporto-rei, e que este é perfeitamente capaz de inspirar grandes momentos de criatividade para além das jogadas em campo.

Ars Litteraria, que não vai em "futebóis" enquanto forma de alienação colectiva mas reconhece a beleza do desporto, esteve atento e pediu ao escritor Rui Zink que nos cedesse o seu belo texto sobre o jogador que glosou: o Grande Luisão.

Ei-lo aqui (e é claro, segue o nosso conselho para que corram às bancas para adquirir uma revista que - despidos os preconceitos - ficará nos anais da história da literatura em Portugal (tal como a fabulosa "Sinfonia Benfica" do compositor António Vitorino de Almeida, a qual sendo - inequivocamente - uma das melhores obras sinfónicas de sempre produzidas por compositores portugueses -, por estranho que pareça não está à venda na loja do clube).


Lui-Zão [2010] / (re)designed by DZ


LUISÃO
: uma girafa humana diferente de Charles de Gaulle
/ por Rui Zink


Falam, não falham, as estatísticas: Luísão apenas falhou, este ano, os jogos que não o deixaram jogar. Falou, Luisão! Ao longo de toda a época, foi “uma das três peças firmes” na sacrificada equipa do Benfica. Confere respeito. Mas não é só pela sua arte e fiabilidade que se mede Luisão. É também por algo que podemos ver em campo e que não podemos ver mas também sabemos existir no balneário: carisma. O carisma não é fácil de conseguir: uns têm, outros não têm. É natural, mas dá trabalho. Tê-lo é apenas o princípio das coisas. Saber formatá-lo é a sequência que nem todos conseguem.

É a diferença entre ter autoridade e ser autoritário, entre firmar uma posição e perder o pé. Quando, na primeira mão com o Liverpool (a única de que me lembro), Luisão leva com a mão malandra de Babel na cara (uma provocaçãozinha que, no calor do momento, geralmente resulta), o tiro saiu pela culatra e foi o jogador inglês que levou guia de marcha. Toda a experiência, ciência, presença de Luisão estava ali. Ele nem precisou de pensar, para pensar a coisa certa: “Esquenta não, moleque, cabeça fria, cabeça fria.” É por estas fico sem entender quando na Selecção vejo fedelhos imaturos com a braçadeira de capitão. Porque Capitão, para mim, é Luisão. Como há quarenta anos o era Mário Coluna.

O girafa humana original era o general De Gaulle, um homem tão monumentoso e autocentrado que sobre ele ainda se conta que, um dia, a esposa entrou no quarto estava ele nu e exclamou: "Oh, Mon Dieu!" Ao que De Gaulle respondeu: “Querida, sabes que entre nós podes chamar-me Charles.” Luisão nunca proporcionaria uma piada destas, porque é outro tipo de girafa humana. Não se acha o maior, apenas sabe que tem de ajudar a equipa a jogar o melhor que as circunstâncias permitem. Geralmente consideramos que o verdadeiro artista é o jogador de ataque e o defesa está lá apenas para “obstaculizar”. Não é bem assim: avançado e defesa de equipas contrárias são rivais mas, também, parceiros de dança, como Liedson e Luisão, verde e vermelho, são adversários e amigos. O defesa não está lá para impedir o avançado de brilhar, mas para lhe dificultar a vida. Ou seja, para o ajudar a brilhar. Porque no dificultar a vida é que está o ganho. Sem grandes defesas, não haveria grandes avançados. Luisão é por vezes batido? Claro que sim. Mas ele vai obrigar o avançado contrário a esforçar-se, a dar o seu melhor. Mais do que patrão da defesa ou capitão da equipa, ele é o padrão pelo qual todos os jogadores se deviam medir: mais alto, mais forte, mais sereno. Imagino-o no balneário a motivar os colegas: “Gente, hoje até podemos perder, mas eles vão ter de dar o seu melhor para o fazer.”

Houve muitos momentos memoráveis neste campeonato. É a prova mais nobre, porque é a mais longa. Todas as equipas jogam duas vezes com todas as outras equipas. É o teste que menos depende da sorte de um dia bom, ao contrário da Taça, que também tem o seu encanto, mas se assemelha mais a uma lotaria. Pois para mim, o momento decisivo deste Campeonato Nacional (ainda não me habituei, acho que nunca me habituarei, a chamar-lhe Liga Cergal) foi precisamente o último jogo com o Nacional, na Madeira. A equipa estava cansada, havia nevoeiro, a tragédia recente fazia com que o jogo fosse mais emocional que de costume, o Benfica estava a dominar, mas sem pontaria. Tudo apontava para uma derrota, pois um empate é uma derrota desde que, em boa hora, os americanos inventaram a vitória por três pontos. Eis senão quando, qual Liedson, Luisão resolve. Foi ali que eu murmurei para quem, na tasca do Rafael e da Cristina, me queria ouvir: “Acho que foi aqui que o Benfica ganhou o campeonato.” Podia tê-lo perdido ali. Não perdeu. Luisão resolveu.

Por que motivo puxo por duas vezes (três, agora com esta frase) pelo nome de Liedson? Porque li algures que os dois fora do campo são amigos e desejam o melhor para a carreira do outro. E encanta-me que, precisamente, nos derbies eles sejam não só rivais, por causa das equipas, mas parceiros mesmo num duelo que se arrasta e promete continuar no próximo ano lectivo. No boxe este tipo de amizade não é incomum: o sul-africano Botha e o afro-americano Holyfield comeram um bife juntos dias antes de se massacrarem no ringue. Talvez por ser mesmo um jogo de homens, e não de rapazes, o boxe tem poucos ódios que passam para lá das cordas. Já no futebol português não parece ser assim. O rancor dura e dura e dura… Apagada e vil tristeza, diria Camões, se fosse fã de futebol. E, se fosse fã, talvez até fizesse um soneto a Luisão. Algo como:

Transforma-se o amador na coisa amada
Por virtude do muito imaginar
Luisão, tu até com a bola parada
Sabes que o jogo é muito mais que ganhar.

Contigo a partida fica mais calibrada
E se Saviola, Di Maria, Cardoso, Aimar
Pura e límpida arte são, a atacar
Tu não menos arte és – à retaguarda.

Pois no jogo que é vida, sorte e drama
Patrão és da defesa, da equipa Capitão
E defesa que ataca – e faz xeque à dama.

Tu todo águia és, em alma e coração
Não, não és só o nosso Girafa Humana
És também o firme, o bom, o leal Luisão.
Rui Zink
in: Benfica, o renascer do culto. Diário de Notícias, Maio 2010, ISSN 0870-1954, pp. 38-39


Sinfonia n. 1, op. 21 «Benfica»
, de António Vitorino de Almeida (1940-)
(excerto)
-

domingo, 21 de março de 2010

ARS LITTERARIA (22): O Anibaleitor : reedição de uma obra-prima da literatura universal




Uma das obras-primas da literatura universal de expressão portuguesa (podemos dizê-lo sem rodeios, sendo que já o fundador da publicações Europa-América, Francisco Lyon de Castro, afirmava publicamente há anos atrás que o escritor em causa iria ser o próximo Prémio Nobel português), o Anibaleitor, de Rui Zink, cuja 1.ª edição de há muito esgotada saíu com a chancela da FNAC em edição comemorativa do Dia Mundial do Livro 2006, volta a ser editado em Portugal, com algumas modificações, desta vez sob a égide da prestigiada Teorema, a editora que tem vindo a publicar os mais recentes livros do escritor. Pelo meio, contam-se traduções desta e doutras obras suas em várias línguas, inclusive esgotando sucessivas edições nalguns países, podendo falar-se de um merecido êxito internacional reconhecido pela crítica.



Trata-se de uma obra de uma grande inventiva meticulosamente construída (ou não fosse Rui Zink o introdutor em Portugal dos Cursos de Escrita Criativa) - de forma que somos impelidos a só parar de o ler quando chegamos ao final -, mas que se oferece simultaneamente como um hino à literatura e que, pelo seu estimulante didatismo criativo, se constitui como um magistral incentivo à literacia, e - Alô Dr.ª Isabel Alçada! - como tal devia ser de leitura recomendada nas escolas.



Concebido como uma parábola que tem como antecedente bibliográfico o Sermão de Santo António aos Peixes, do P.e António Vieira (1608-1697), desta feita em peculiar diálogo de uma criança com um estranho animal - o Anibaleitor - e que sem deixar de ser mordaz e irónico, constitui pelo seu enredo onírico de evidente ternura pela aventura humana, aqui exposta sob a relação entre uma criança e um "monstro", um contraponto apolíneo ao último "romance" do autor - O Destino Turístico - esse livro dionisíaco de uma genialidade ácida que reflectia sobre os caminhos da Era Bush. Ou seja: a despeito do nihilismo em que o mundo se vê mergulhado, entreve-se aqui uma porta para uma nova Era de Esperança, com uma clara mensagem: É pela cultura, e só mediante esta, que nos podemos salvar!


«(...) Levei as costas da mão aos lábios, com horror:
-Tu... Tu comes mesmo pessoas?

A criatura fez um ar modesto:

- Bem, o que posso dizer? Sou um freguês de muito alimento.

- A sério? Comes mesmo?

- Gosto muito, sobretudo de língua portuguesa...»

Ora, enquanto o Destino Turístico tinha os adultos como público-alvo, este Anibaleitor destina-se preferencialmente aos jovens, ainda que os adultos não deixem de poder maravilhar-se com ele, o que certamente sucederá (apostamos) com aqueles que o lerem com atenção.

Parafraseando um aforismo popular, se há certas iguarias que "são de comer e chorar por mais", este é certamente um daqueles livros que "são de ler e clamar por mais"!

ver convite para a apresentação pública em:

http://arsintegrata.blogspot.com/


Nota:

Rui Zink é doutorado em Literatura Portuguesa pela FCSH-UNL, Professor na mesma Faculdade e autor de vasta obra ficcional e ensaística. Desde que em 1987 publicou Hotel Lusitano, o seu primeiro romance, publicou já mais de três dezenas de títulos. Destes, destacamos Homens-Aranhas (1994), Apocalipse Nau (1996), A Espera (1998, rev. e aum. 2008), O Bicho da escrita (2004 - na shortlist do prémio Pushcart), Dadiva Divina (2004 - Prémio Pen Clube 2005), A Palavra Mágica (2005), O Anibaleitor (2006, rev. 2010), O Destino turístico (2008 - Prémio Ciranda 2009).

Para mais informação ver: http://ruizink.com/acerca-2/

-

domingo, 14 de dezembro de 2008

ARS LITTERARIA (12): Natal, mar de livros



LANÇAMENTOS NATALÍCIOS



Para este Natal, entre as melhores ofertas estarão os livros e os discos. Os editores sabem-no e nesta altura inundam o mercado com novas edições, do melhor ao pior.

É um período em que os potenciais leitores tendem a ser acríticos por falta de tempo para uma análise detalhada, e por isso mais permeáveis ao marketing das editoras, que nesta altura apostam sobretudo em valores mediáticos: em primeiro lugar, os livros assinados por jornalistas ora travestidos de romancistas históricos (sem que sejam escritores ou historiadores, tratando da escrita como quem trata de uma receita de culinária: uma pitada de sal, um enredo policial,..., tantas gramas disto, tantas daquilo,... ah um bom pedaço de amor, ou melhor ainda de sexo, para dar aquele “gostinho especial”...), logo seguidos dos escritores premiados, desta feita já sem o (justo) Nobel à cabeça mas de um seu ambicionado candidato... até chegar aos que pela primeira vez se aventuram nestas lides (o que só por si é um acto de coragem, tendo em conta o elevado preço dos livros e a crise financeira a que conduziram os arautos do neo-liberalismo, quais agentes branqueadores dos desmandos de empresários e de políticos sem escrúpulos).

E não é que a escrita não possa ser um "mundo de aventuras", aliás um romance é, invariavelmente, isso mesmo. Mas, é certamente preciso mais do que isso (por exemplo, no caso do ressurgimento do romance histórico, que teve grandes escritores a valorizá-lo - Marguerite Yourcenar, com as Memórias de Adriano e a Obra ao negro, Umberto Eco, com O Nome da Rosa e O pêndulo de Foucault, Christian Jacq com Champollion, o egípcio e outros tendo como matéria-prima o Antigo Egipto e mais tarde a vida de Mozart (com uma muito interessante tese sobre as causas da sua morte), Steven Saylor, com Sangue Romano e seguintes de uma saga não terminada, e, entre nós, José Saramago, com o Memorial do Convento, etc. –, aliando preocupação de rigor histórico e ficção, numa escrita simultaneamente vigorosa e cuidada, com sentido humanista, em que as técnicas utilizadas (a do suspense tornou-se um must), não constituem um fim em si mesmo, mas são pretexto para aliciar o leitor para um exercício de inteligência, ou de reflexão sobre a dimensão ética da existência humana, ou visam mesmo tão simplesmente informá-lo de diferentes horizontes para além daquele que o leitor já abarca. E, é sabido que depois destes autores o romance histórico tornou-se palco de um enxame de sub-produtos oportunistas, pseudo-literatura susceptível de seduzir os incautos que se deixam levar na onda (é, sobretudo, a estes, que é dirigido o marketing). Claro que há excepções como Matilde Ascensi, Inès Nollier, Joan Ohanneson, e talvez mais alguns…, mas a maioria é absolutamente deplorável, devendo destinar-se ao caixote do lixo como se de comida estragada se tratasse (parafraseando Luiz Pacheco, literatura comestível precisa-se!).

Não que não seja louvável só por si o acto da escrita, ou que esta deva ser privilégio exclusivo dos profissionais da escrita (dos quais, como se sabe, só alguns são na realidade bons escritores, independentemente do estatuto que alcançam).

Não se nasce escritor! Veja-se, por exemplo, o caso de Umberto Eco (um dos escritores mais prolíferos e celebres da actualidade): começou por ser filósofo e ensaísta, só mais tarde se encontrou como escritor ficcional.

Não é, pois, disso que se trata, mas tão só de distinguir o trigo do joio. Num país que não tem hábitos de leitura e com fraco poder de compra, afigura-se como particularmente importante que o leitor desprevenido não leve gato por lebre, mais a mais quando se corre o risco de a escrita banal afastar de vez os potenciais leitores da prática da leitura (sobretudo se houver uma sensação de não retorno, em prazer, do dinheiro e do tempo investidos)… o que obviamente não sucederá com os leitores mais experientes e avisados.

Aliás, nem sequer é necessário ser de um bom escritor para que um livro mereça ser lido, basta que acrescente algo ao nosso conhecimento ou ao modo de ver aquilo que supomos conhecer. É claro que se for bem escrito, tanto melhor! E, por bem escrito entenda-se não o mero burilar (frequentemente gongórico) das palavras procuradas no dicionário (que alguns julgam ser o único modo de cultivo da língua), mas a capacidade de um escritor criar em nós um interlocutor activo (seja pela fluidez da escrita ou pelo efeito da interpelação conseguida) e de nos seduzir para a prática da leitura de outros livros (seja pelo ritmo da articulação das palavras e do enredo, ou por quaisquer outras razões).

Ars Litteraria não pode, obviamente, permanecer indiferente ao mercado literário, mas deseja sobretudo contribuir para a divulgação de obras que interajam de forma positiva com o leitor, independentemente da maior ou menor visibilidade dos seus lançamentos e dos circuitos de distribuição. E neste Mar de livros, há que fazer boas escolhas. São, pois, os nosso votos para este Natal:
Boas escolhas! E... Boas Leituras!
-

domingo, 26 de outubro de 2008

ARS LITTERARIA (9): O destino turístico, novo livro de Rui Zink


O DESTINO TURÍSTICO : ficção ou realidade?


O escritor e professor universitário Rui Zink deu à estampa o seu último livro. O lançamento "oficial" ocorreu no passado domingo, dia 26 de Outubro de 2008, pelas 17hoo, na FNAC Chiado, com sala cheia para ouvir a apresentadora, a escritora Inês Pedrosa, actual directora da Casa Fernando Pessoa, e, é claro, o próprio autor. Sala cheia: intervenções dos "conferencistas", e a habitual sessão de autógrafos. As performances são efémeras, como se sabe, e delas beneficiou apenas quem lá esteve, mas o livro, esse aí está.

Sinopse:

«Há um sítio onde se faz turismo de guerra. Quem lá vai quer assistir e participar ao vivo em bombardeamentos, explosões e atentados. Há anos que a Zona é tristemente célebre pelo estado contínuo de guerra civil… é um verdadeiro “paraíso infernal”. Greg parece ser apenas mais um turista, mas o seu guia – após o desaparecimento de uma delegação de observadores filipinos – começa a questionar as suas verdadeiras intenções. Porque será que Greg decidiu visitar aquele inferno de horror quotidiano?!».

Citações de alguma crítica especializada:

"O meu texto favorito é um que doravante usarei como referência. Citá-lo-ei a amigos, farei cópias para os mais próximos (esperando não ser processado por violação de direitos de autor). (...) É uma tremenda história, esta de Rui Zink, acerca do apocalipse de que todos somos testemunhas"
- Sheheryar B. Sheikh, in Newpages.com

"Um escritor extremamente original no vasto universo da literatura portuguesa contemporânea"
- Helena Vasconcelos, in Colóquio Letras

"É possível ter uma perpectiva inovadora sobre as coisas banais? Sim. É isso que faz Rui Zink"
- Tiago Damião, Atlântico


Trata-se, quanto a nós, de uma verdadeira obra-prima (ler para crer, como São Tomé, e nós já o fizemos!), ainda que sendo um livro "duro", num registo distinto da maioria das suas anteriores produções de escrita ficcional - diametralmente oposto ao precedente e "terno" romance A Espera - mas de uma notável poética plena de sentidos múltiplos que catapulta o leitor acima do caos descrito e paradoxalmente, elevando-o acima da realidade, lhe fornece uma maior objectividade, tudo numa dinâmica avassaladora mas com uma escrita cuidadosa que atenta no detalhe, e simultaneamente com um suspense que nos deixa agarrados ao livro até chegarmos ao fim, e mesmo para lá dele, pois somos levados a uma reflexão sobre os actuais caminhos da (des)humanidade. Obra singularmente "profética", no rescaldo da "Bush Era", diríamos quase obrigatória para compreender a crise (note-se que o texto foi escrito antes desta se revelar aos olhos de todos nós) e o que ela nos pode reservar ainda...

Em suma, um livro em tudo diferente do que é habitual na literatura portuguesa, Ars Litteraria recomenda vivamente. Ah, tem também uma belíssima capa...

Preço módico: ca. 15 €


quinta-feira, 25 de outubro de 2007

ARS LITTERARIA (6) : Eça agora? Perdão, Essa agora!


O «BANDO DOS 7» VOLTA A ATACAR


A propósito do lançamento ocorrido ontem na BNP (ver http://arsintegrata.blogspot.com/ ) do último livro do «Bando dos 7» - Eça agora : os herdeiros dos Maias - , Ars Litteraria reproduz, com a devida vénia e autorização expressa do autor, o texto elaborado por Rui Zink para a apresentação desta obra colectiva dos escritores Alice Vieira, João Aguiar, José Fanha, José Jorge Letria, Luísa Beltrão, Mário Zambujal e Rosa Lobato Faria.



Essa Agora?!?


Bom, vamos lá a despachar isto. Para que conste dos autos, temos presentes em corpo e papel, uma tal de Beltrão, um Aguiar, uma Vieira (relação possível com futebol), uma Lobato de Faria (da família do editor, provavelmente, está na cara que é cunha), um Letria, um Zambujal, uma Fanha… Um Fanha – raio de nome.

Escreveram um livro a catorze mãos, o que é suspeito, sendo eles sete, a menos que tenham usado também a mão esquerda, o que não sendo suspeito, está fora de moda, como atestam os autos. O volume em causa intitula-se Eça Agora, e ostenta desde logo um erro de português, Essa escrito com cê de cedilha, o que, se mais fosse necessário, é prova provada de que se trata de um romance pós-moderno, escrito por portugueses pós-modernos, it est, escritores que publicam best-sellers mas nunca aprenderam a ler para não correrem o risco de ser influenciados.

A menos que o erro tenha sido voluntário, e aí a única coisa que nos cabe dizer é que, num país de escritores analfabetos, quem se finge de ainda mais analfabeto, além de batoteiro, é rei.

Mas adiante. Não é preciso, como nós, ter um doutoramento em literatura para reparar nas semelhanças entre esta obra e uma outra, publicada já há algum tempo, por um tal de Eça de Queirós, provavelmente admirador do romance Equador, porque em tudo imita o seu estilo.

Trata-se então desde logo, este Eça Agora, não de um plágio, mas de sete plágios – ou, se quisermos, catorze plágios. Só que não há crime perfeito. A coisa começa bem, com um Carlos da Maia, um Afonso da maia, mas depois descamba, pois as personagens nem sequer correspondem ao objecto original concebido há sensivelmente um século, ou seja, cem anos. De ver portanto que não se trata da obra tal e qual, mas sim do relato de uns herdeiros directos e/ou indirectos, em tudo parecidos com os originais, mas diferentes.

Dâmaso Salcede continua a revelar-se a personagem secundária mais conseguida, sendo mesmo promovido a barão, ou a conde, de Mehrscheisse, palavra estrangeira, de origem alemã, que embora evoque outras paragens, lembra muito, muito curiosamente, paragens e aragens bem portuguesas. Poder-se-ia dizer que a Mehrcheisse de Dâmaso, aliás Damásio, Salcede, reflecte bem o estado das coisas.

Dos autos consta também uma jovem Lara Marlene, cujo pai não é claro se pagou ou não dez milhões para saldar uma sua dívida, contraída quiçá enquanto era namorada de Carlos da Maia, antes de o ter tentado atropelar, pelo menos.

Até à data, impossibilitados de fazer os testes de ADN, porque não é fácil testar duas personagens imaginárias, desconhecemos se Maria Hermengarda é ou não irmã de Carlos da Maia. Por “à data” entendamos a página 299, infelizmente não conseguimos atempadamente concluir a leitura do romance para a incluir nos autos, faltando-nos neste momento doze páginas, ou seja, o equivalente literário a 175% de derrapagem nas custas da reparação do metro da Praça do Comércio, mais coisa menos coisa. O romance remete o resultado dos testes para o CSI – ou Ci eSse Ai – o que atesta a plurissignificação e intertextualidade do dito.

Um outro protagonista do livro parece ser um tal de… Por… Portugal. Portugal? Não verificámos ainda se consta da lista de procurados. O mais provável é este Portugal tratar-se de um pequeno malandro, capaz de todas as patifarias. Ou não. Ao longo do livro fala-se muito dele, e até é sugerido que é o pais (sic) das Laras Marlenes e dos Antónios Maleitos e das Zizinhas Borralhos e dos Dinos Palmas Cavalitos. Mas, para além de parecer paternidade a mais, tem um erro de português (mais um): deveria escrever-se o pai e não o pais, e mesmo isso, como tudo isto neste Portugal (o do romance, bem entendido) parece poucochinho, deveria mesmo ser um í surdo: um paí, e já é ser muito generoso.

Mais acresce acrescentar aos autos que, neste Eça Agora, é muito difícil identificar as partes do corpo, ou seja, quem retalhou e tratou que partes do corpo, porque foram mui bem cosidas, sem estranhezas de tom, ritmo ou fluência narrativa, mérito atribuível decerto sobretudo aos serviços de reprografia, e, além disso, os nomes nas epígrafes de cada capítulo estão trocados. É certo que há um fólio a indicar as autorias, mas quem será tanso ao ponto de acreditar nestes figurões? Na volta, ao dizer que o capítulo V é da Sicrana e o VI é da Beltrana, estão apenas a arranjar-se álibis uns aos outros.

Autorias? Nós diríamos antes malfeitorias. A própria nota de contracapa o admite: “Certamente, o Eça escreveria melhor, mas não diria pior.” Canalhada anti-patriótica, todos – e referimo-nos aos quinze!

Mais acresce acrescentar que não achámos graça nenhuma, por passarmos férias em Cancun e Armação de Pêra, e gostarmos, quando os autuados a dada altura escrevem, com acinto:
“E Carlos, na mais negra das depressões (…) Tudo lhe era indiferente. De Cancún, seguiu para Armação de Pêra. Queria, de facto, sofrer.” (297)
Tão pouco nos agrada que digam:
“- Mas que hei-de fazer – inquiriu João da Régua. (…) e viver hoje em Portugal, entre louvores a Salazar e a ostentação dos novos-ricos, podes crer que não é coisa fácil.” (133)
O respeitinho é muito bonito. Aliás, é preciso não esquecer que, segundo alguns primeiros, os escritores são engenheiros das almas.
Já indício grave nos parece a seguinte indicação:
“- A propósito… Que raio de ideia foi aquela de tentares atropelar-me? (…)
“- Carlinhos, eu quis atropelar-te. Mas foi com um Bentley! Se isso não é amor, é o quê?” (237)
Até porque aqui já não nos parece haver sátira, mas realismo socialista. Afinal o carro é a única arma com a qual podemos matar o cônjuge ou o vizinho sem incorrermos no risco de sermos presos. Achamos que este é um muito mau exemplo a dar às crianças e ao povo.

Enfim, que mais resta dizer? Nunca foi feito em Portugal um livro como este* – a catorze mãos – com escritores que se divertem e nos divertem a brincar – muito a sério – com a literatura.
E se reincidentes são, só duas coisas restam: ou prendê-los, se aí estiver a Polícia; ou então, que remédio, lê-los e deixarmo-nos levar (presos?) por este Eça Agora. (Sim, com cedilha.)


* A editora Cristina Ovídio corrige uma, duas vezes, dizendo que já é o terceiro livro do bando.

Rui Zink / Outubro 2007

terça-feira, 4 de setembro de 2007

ARS LITTERARIA (3) : Anti-barb(ár)ie azul de Cristina Vieira


Subsídios para a história da literatura e do teatro


Ars Litteraria
orgulha-se de vos apresentar um texto de CRISTINA VIEIRA (escritora, poetisa, professora, etc.), que a nosso pedido aceitou (re)publicar aqui o seu excelente Prefácio ao texto dramático O barba-azul : Ken kills the barbies?, também da sua autoria, editado pela Apenas Livros (v. http://www.apenas-livros.com/ ).

Este, é sem dúvida, mais do que um excelente aperitivo para o prato principal (a própria peça que o suscitou), que, pela sua abrangência e profundidade de análise, ultrapassa claramente o texto cénico sem deixar de incidir sobre ele. Na verdade, entendemos destacá-lo por se tratar, não apenas de uma "mera" apresentação da peça teatral, mas por conter uma notável síntese histórico-crítica do universo literário dos "contos de fadas" e das suas correspondências com o fenómeno barbie, sem esquecer a sua contextualização psico-sociológica, entrosando as perspectivas sincrónica e diacrónica de modo a favorecer uma percepção crítica ao leitor/espectador/consumidor.


Fica desde já o desafio de o lerem atentamente neste formato, ou mais comodamente, pela aquisição do próprio livro, e de o comentarem.



PREFÁCIO


“What is greater about this country is that
America started the tradition where the richest
consumers buy essentially the same things as
the poorest. You can be watching TV and see
Coca-Cola, and you can know that the
President drinks Coke, Lis Talor drinks Coke,
and just think, you can drink Coke, too. A
Coke and no amount of money can get you
better Coke that the one the bum of the corner
is drinking. All the Cokes are the same and all
the Cokes are good. Lis Taylor knows it, the
President knows it, the bum knows it, and you
know it
”
ANDY WARHOL



O que haverá de comum entre a personagem Barba Azul dos contos de fadas franceses do século XVII e o boneco Ken fabricado pela empresa de brinquedos Mattel em 1960? O que haverá de comum entre a personagem feminina anónima que não consegue resistir a uma tentação, a mulher do Barba Azul, e a boneca mais coleccionável do mundo, a Barbie? Todos são universais e famosos, conhecidos do grande público consumidor, acessíveis a qualquer bolso e proporcionam bem estar, tal como a Coca-Cola, permitindo uma entrada de acesso fácil ao mundo da fantasia e do sonho.

Estas personagens/objectos representaram um marco na história de uma época e de uma sociedade específicas, que os distinguiu, pelo seu carácter inovador na data em que surgiram, mas também eles passaram a ser partes constituintes de uma tradição literária/icónica que os foi inscrevendo no tempo.

Vários contos de fadas de tradição oral como O Chapéuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, A Gata Borralheira, entre outros, foram passados à escrita por Charles Perrault no século XVII. No entanto, Bruno Bettelheim na obra Psicanálise dos Contos de Fadas considera que o conto O Barba Azul, para além de não ser um conto de fadas, pois só a chave com sangue indelével é mágica, sendo ela que denuncia o facto da jovem esposa de Barba Azul ter entrado no quarto proibido, também afirma que o conto foi inventado pelo autor, pois, que ele saiba, não há antecedentes directos desse conto em contos populares. Na altura, o género emergente dos contos de fadas fez moda entre 1685 e 1700. Mas também ele foi desprezado pelos Antigos por constituir um género menor. Foi Perrault, advogado do partido dos Modernos, quem veio em defesa destes contos de tradição popular francesa, que ele ironicamente apelidou de “bagatelles”. Em grande discussão académica quis elevá-los à categoria dos grandes géneros clássicos, como a epopeia e a tragédia, defendidos pela Academia Francesa, alegando para tal cumprirem estes a mesma função das grandes obras clássicas – instruir divertindo. Hoje, os contos, assim como as personagens que os habitam, fazem parte de um reportório dito “clássico” que vai sendo revisitado de tempos a tempos.

Também a boneca Barbie, nascida em 1959 pelas mãos de Ruth Handler, e o seu noivo Ken fizeram furor numa sociedade que sendo a fábrica de grandes mitos/ícones também os reduzia à categoria de objectos, produzidos em massa para uma sociedade consumista. Esta sociedade – tipo viu-se reflectida numa Cultura Pop que a TV ajudou a popularizar: mitos como Marilyn Monroe, Liz Taylor, Elvis Presley co-existiram e existem na mesma prateleira com objectos como a Coca-Cola, a Pepsi-Cola, notas de dollar, latas de sopa, pacotes de cigarros,hamburguers e sanitas. Eles foram simultaneamente os heróis, os símbolos de uma nova geração, mas também eles foram as “vítimas” dessa mesma sociedade que os nivelou e os reduziu à mesma categoria indistinta – a de objectos, de embalagens apetecíveis. As serigrafias de Andy Warhol, as obras de Claes Oldenburg construídas com material plastificado, como por exemplo “soft toilet”, e, claro, a boneca Barbie, a chamada “sexy symbol de plástico” são alguns dos símbolos máximos deste “barbie world” onde “life in plastic, it’s fantastic!” como diz a letra da canção Barbie Girl dos Aqua.

As primeiras edições dos contos de Perrault foram feitas avulso no Tipógrafo do Rei, no jornal de época Mercure Galant, etc.; a colectânea, com todos os contos já incluídos, Histoires ou Contes du Temps Passé, já foi editada pelo Tipógrafo Claude Barbin e por algumas edições de literatura de cordel, a chamada “Bibliothèque Bleue” ou “Littérature de Colportage”. Os livros da chamada “Bibliothèque Bleue” eram de pequeno formato, muito baratos e distribuídos por retroseiros e apregoadores em toda a França que, de porta em porta, tanto vendiam laços e alfinetes como livros. A sua cientela de aldeia eram os camponeses, os comerciantes e a burguesia de província. Estes eram produzidos em papel azul que servia habitualmente para embrulhar pães de açúcar e eram ilustrados com gravuras antigas sobre madeira. A “Bibliothèque Bleue de Troyes”, iniciada em Troyes, em 1602, pelo tipógrafo Jacques Oudot, a mais conhecida e representativa da cultura popular da época, tinha no seu corpus obras de carácter didáctico, como almanaques, guias de medicina e de agricultura , manuais de boa conduta, mas também livros de piedade e de divertimento, como canções, romances de cavalaria, romances sentimentais e recolhas de contos. Na realidade, foi só no século XIX, com a segunda vaga dos contos de fadas e com o romantismo no seu auge, que os contos de Perrault , de Mme d’Aulnoy e de Mlle L’Héritier foram mais divulgados nestas colecções de índole popular, já com um público mais alargado. Os contos de fadas reganharam uma nova vitalidade e dimensão com a chegada do cinema de animação, quando Walt Disney em 1937 produziu o primeiro filme animado nos E.U.A., Snow White and the Seven Dwarfs, argumento baseado na história de Jacob e Wilhem Grimm, que foi um verdadeiro êxito de bilheteira. Outros lhe seguiram: A Bela Adormecida, A Gata Borralheira, A Bela e o Monstro, etc..

Também a boneca Barbie, lançada na “New York City’s Toy Fair” em 1959, conheceu de imediato um enorme sucesso de vendas entre o público mais jovem. Nas décadas seguintes, vários golpes de marketing foram-lhe garantindo o sucesso de vendas: outros companheiros foram criados para a boneca, entre os quais o seu noivo Ken; em 1985 vários criadores de moda da alta costura desenharam roupas para a boneca, etc. Curiosamente, a venda desta boneca baixou drasticamente quando a empresa em 12 de Fevereiro de 2004 anunciou que o romance entre “the perfect plastic couple” tinha acabado, à semelhança do que se passava entre os casais de actores em Hollywood. Talvez a fantasia deva ser sempre fiel a si mesma!

Hoje, os contos de fadas e os seus heróis e heroínas, à semelhança da boneca Barbie e do seu noivo, pelo lugar de destaque que ocupam no imaginário colectivo, continuam a ser revisitados na literatura, no cinema, no teatro, na dança, nas artes plásticas, mas também em artes ditas menores, como a publicidade, por exemplo.

Nesta “aldeia global” em que vivemos, à crescente pluralidade de formas de expressão artística, junta-se a necessidade da interpenetração das mesmas, numa tentativa de explorar o desconhecido, mas também de guardar os registos do passado, no caminho da arte total.

É nesta senda da necessidade de actualização do passado, de adaptação à realidade actual de uma sociedade “plastificada”, globalizada, a vários níveis, que propomos a reescrita deste conto do século XVII, procurando, desse modo, ganhar o interesse do público em geral, e do público jovem em particular, mas também procurando divertir-nos muito.


Como surgiu, afinal, a criação deste texto colectivo escrito por alunas e professora?

Os alunos começaram a chegar ao Clube de Teatro da Escola Secundária de Miraflores até perfazer um total de onze alunos: nove raparigas e dois rapazes. A escolha do texto a apresentar na “Semana da Escola” e na “Mostra de Teatro de Oeiras” tornava-se difícil. E como já diz o povo “A necessidade aguça o engenho“. E foi precisamente dessa necessidade em adaptar um texto à realidade do grupo que foi escolhido o conto em questão, tendo-se procedido às devidas adaptações não só de carácter genérico, mas também temático, de acordo com linhas de escrita e de representação da época, de acordo com mensagens que se pretendiam veicular, de acordo com o público que se pretendia atingir, mas também de acordo com o prazer que a própria representação do texto pudesse proporcionar aos actores e actrizes que o representavam. Assim sendo, as alunas, de acordo com as personagens que lhes foram atribuídas (cada uma deveria representar um pecado capital), criaram um texto individual que a professora compilou, adaptou e transformou. Ao longo dos ensaios da peça, e dos dois Ensaios Públicos da mesma que aconteceram durante a “Semana da Escola”, foram-se fazendo ajustes ao texto, aproveitando-se sugestões dos alunos de acordo com as dificuldades sentidas e com as ideias que iam surgindo durante o trabalho prático dos ensaios: troca de papéis, aproveitamento de novas ideias para indicações cénicas, feitura de pequenos cortes ou alterações na fala de algumas personagens; um pouco do que se poderá chamar o “work in progress”.


Como se procedeu, então, à actualização deste conto?

Nas últimas décadas, tem-se procurado revitalizar o género teatral e em particular o subgénero teatro musical, veja-se o sucesso dos musicais de Andrew Lloyd Webber Evita, Cats, The Phantom of the Opera, o primeiro e o último adaptados recentemente para o cinema musical. O cinema musical também está a conhecer um novo revivalismo, com filmes como Moulin Rouge de Baz Luhrmann ou The Dreamgirls de Bill Condon, entre outros. Esta moda também está a querer criar raizes em Portugal e em particular no teatro, basta verificarmos o sucesso dos musicais de Filipe La Féria Amália, My fair Lady e Música no Coração.

Procurando ir de encontro do “gosto” do público da época e dos actores do grupo de teatro, a peça reescrita procura, também ela, inscrever-se nesta nova vaga do teatro musical, mas também vive da mistura dos géneros, marca da sociedade actual, como foi referido anteriormente: Assim, para além de pequenos apontamentos musicais que percorrem a peça, com recurso ao uso da canção e da coreografia, houve a necessidade de jogar entre o registo da tragédia e da comédia, imprescindível à expressão da realidade múltipla e global da sociedade actual. Teremos o que se poderá catalogar de tragi-comédia com apontamentos musicais.

Para atribuir um carácter de veracidade à peça, aproveitámos a universalidade que constitui o comportamento das personagens do conto de Perrault- ainda hoje existem mulheres curiosas e homens prepotentes e maus- mas tivemos que datar o texto e fixá-lo no espaço, o que também constitui uma das características do género teatral: segundo as regras clássicas da tragédia, deveria haver unidade de tempo (a acção passar-se em 24 horas), de acção e de espaço (a acção condensada, deveria decorrer toda no mesmo espaço).

A acção passa-se no ano de 2007. Há várias marcas no texto da referência ao ano em causa, mas a mais marcante e aquela que denuncia o mundo da comida de “Plástico” está presente numa fala da personagem que simboliza o pecado da gula – a barbie Gila quando esta diz:“ - A propósito, já viu o novo filme de Richard Linklater Fast Food Nation? Fui vê-lo em estreia a New York, agora em Janeiro”. Também a acção principal da peça ocorre no tempo de 24 horas: o tempo que decorre entre a partida e a chegada de Barba Azul a casa,pela madrugada.

Quanto ao espaço seleccionado, não foi por acaso que escolhemos o Palácio da Pena em Sintra. Precisávamos de uma casa abastada, pois o Barba Azul era um homem de muitas posses, mas também de um monumento que tivesse uma torre, uma vez que no conto, a irmã do Barba Azul tem que subir a uma torre, sendo este o momento de maior tensão dramática da peça. Também escolhemos este espaço por ser um lugar “famoso” (o lugar ideal para ser habitado pelo popular “casal de plástico”), com tradição religiosa (o lugar adequado para a elevação e queda dos sete pecados capitais representados pelas sete barbies), isolado, misterioso, pleno de vegetação luxuriante (o lugar favorável ao enredo da peça, onde se conta a história de um assassino em série que escolhia um pequeno quarto do seu palácio para guardar as mulheres que degolava). A acção principal decorre toda neste espaço, de múltiplas galerias.

Quanto à selecção do tipo de personagens, segundo a tragégia, as personagens deviam ser de categoria elevada e segundo a comédia deviam ser de estirpe baixa. Todavia, no texto, se temos personagens elevadas, devido à sua posição social, o comportamento das mesmas não corresponde ao seu estatuto: Ken é um homem abastado, mas também ele é manifestador de um comportamento de baixo nível, apresentando- se como um assasino em série; por outro lado, temos a mulher de Ken e a irmã, as sete barbies e o amigo Romeu, todos eles aparentemente de classe média/alta, representando as barbies o que de mais baixo existe em termos de moral humana, os sete pecados capitais, o que está conforme à tipologia da personagem definida para a comédia.

Ainda na tragégia clássica, havia sempre a introdução do elemento coro, necessário para comentar a acção e ajudar ao avanço da mesma. Nesta peça, o coro das mulheres mortas surge num momento de grande tensão dramática, o momento em que a mulher de Ken descobre o quarto escuro com as mulheres assasinadas pelo marido: o coro intervém, numa primeira vez com uma mera função lúdica: utiliza-se a canção adaptada de Rui Veloso “Não há Estrelas no Céu” para as mulheres mortas “gozarem” o facto de Marianne se sentir completamente perdida, mas o coro, no último verso da canção transporta toda uma mensagem profética, que nem é perceptível à heroína, quando avisa que a sua salvação será a música “Se não fosse o Rock and Roll/ o que seria de si”, pois é o músico Romeu que, no final da peça, irá salvar Marianne da ira do marido. A segunda intervenção do coro das mulheres mortas vai no sentido de adensar o momento de tensão: este intervém para exacerbar o medo na frágil personagem aterrorizada. Mais uma vez a perversidade é jogada como arma na voz do coro. Logo a seguir às duas intervenções do coro, temos a cena em que Marianne parece enlouquecer, evocando-se as palavras de Ofélia, namorada de Hamlet num momento de loucura “- Good night, ladies; good night, sweet ladies, / good night, good night”. A presença do coro no texto é envolvida numa “babel” linguística que se move entre a letra de uma canção portuguesa, um poema francês e uma fala inglesa, procurando-se, desse modo, o aturdimento do leitor/público, ao qual lhe é permitido apenas o prazer do texto..

Não obstante,afastando-nos dos dois grandes géneros clássicos, também esta peça nos remete para o universo primitivo do teatro religioso medieval, a avaliar pela falta de densidade psicológia das personagens. Não se regista qualquer evolução das mesmas ao longo do texto. O facto de Ken e das barbies no final serem castigados, só por si, não é sinal de evolução das personagens dentro do texto. Estas apresentam-se antes como personagens- tipo, representando cada uma um vício, mostrando-se como embalagens vazias que vão desfilando na “passerelle” como manequins que avançam, rodopiam e retrocedem perante o “olhar” do público. A título de exemplo, mencione-se a fala central de Gila à mesa, em que esta tanto faz a crítica da comida de plástico como faz o elogio da mesma às amigas, num discurso perfeitamente contraditório.

A maioria das acções da peça imitam acções reais do dia a dia, o que é uma das características da comédia: o marido que se ausenta para o trabalho e deixa a mulher sózinha; as amigas que vêm a casa da jovem esposa para vasculhar o novo lar; o jovem músico que se apaixona pela mulher de Ken quando vê a sua fotografia e a socorre do marido violento em momentos de apuro. Aparentemente, nenhuma atitude dos heróis emana de uma presença dos deuses, que tanto os aconselham para o bem,como os instigam para o mal, o que é norma da tragédia clássica: Ken decide matar as suas mulheres só porque elas são curiosas e lhe desobedecem. Poderiamos, todavia, considerar a chave mágica que denunciou a mulher de Ken como a presença desse mundo superior no texto, mas deixamos essa interpretação ao leitor. Há ainda a considerar que na peça há vários momentos de intensa tensão dramática em que a catharsis (processo usado na tragédia clássica que serve para purgar as paixões como a piedade e o terror, precisamente para afastar a presença de paixões mais perigosas como a luxúria, a cólera, o orgulho) é posta em prática. Por exemplo, o momento em que as barbies à volta da mesa escutam a descrição nojenta do filme Fast Food Nation feita pela barbie Gila, e reagem com a expressão “Que horror!” e também o momento em que Ken, ignorando o apelo da jovem esposa que se ajoelha a seus pés, se prepara para a matar. Também nestes momentos de grande tensão é introduzido outro processo característico da tragégia, o chamado “comic reliese”. Para aligeirar o primeiro momento, a barbie Jéssica desafia as amigas a cantar e a dançar uma música de cabaret, usando uma linguagem cómica para o fazer e no segundo momento, o “super garanhão” Ken, assim que se apercebe de que um homem está prestes a entrar no palácio, para salvar a sua mulher, procura esconder-se como um cobarde, acabando por ser morto com uma pancada de guitarra na cabeça. Toda a peça é percorrida por diálogos que suscitam a comicidade, por personagens que, pela suas características, são transportadas ao ridículo: a mulher do Ken, por exemplo, com a sua leviandade extrema, e por situações também elas risíveis, tal é o caso em que Gila, o monstro da comida de plástico, procura aterrorizar a afectada amiga Betty.


Quanto ao final da peça, ele é quase simultaneamente trágico e cómico, pois, respectivamente, temos o assassinato de Ken em palco, imediatamente seguida do casamento de sua mulher Marianne com Romeu, precisamente o assassino do marido.

Segundo os fundamentos da doutrina clássica, os fins da poesia deviam ser o divertimento e a moral. De facto, há uma moralidade que se pode extrair da peça: no momento do casamento do jovem casal, as barbies, que simbolizam os sete pecados capitais, não suportando a felicidade da amiga, rebentam, à semelhança dos gnomos quando não conseguem atingir os seus fins maldosos. E o assassino em série Ken é assassinado com uma guitarra, pelo músico Romeu, o que poderia ser entendido como o fim clássico do castigo dos vícios, ou seja, sobre a maldade vence o amor e a arte, simbolizada na guitarra. Todavia, essa moralidade poderá ser contestada pela ambiguidade presente no facto de que a mulher desobediente e curiosa é que sai victoriosa, não sendo ela um modelo de virtude, já que na peça até se acentua o carácter fútil da personalidade da mesma:a mulher romântica e deslumbrada com festas e riquezas que desobedece ao marido para satisfazer o seu instinto de curiosidade e que maltrata a sua empregada. Talvez não haja uma única moral a tirar, talvez haja muitas a encontrar e talvez a única finalidade da peça seja o divertimento retirado do prazer experimentado pelo rodopiar festivo dos sete pecados capitais na casa assombrada, cena central em que as barbies visitam a amiga Marianne, também ela “barbie”, a cena, sem dúvida, mais movimentada e mais divertida, com diálogos provocadores, contraditórios e viperinos, cenas repletas de sensuladidade, canções e danças até ao cabaré. A única personagem verdadeiramente virtuosa nesta peça é uma personagem secundária – Ana- a irmã da fútil Marianne, a que usa a sabedoria popular para se exprimir, através do recurso sistemático ao provérbio, a que consola, a que aconselha, a que permite o salvamento da irmã da fúria assassina do marido. E por fim, que final consolador temos para ela ? Apenas a felicidade de assistir à felicidade da irmã no momento do casamento desta. A ela nada lhe é dado pela sua conduta virtuosa, mas a solidão. E se o amor e a música vencem, estes fazem-no à custa de quê? De uma desobediência e de um assasinato.

Sobre os temas desta peça, o leitor/público, depois de ler o título, de identificar as personagens e de relembrar o que elas representam no seu imaginário, poderá começar a adivinhar os temas nela implícita – a impotência do herói masculino num mundo feminino? A fantasia já não é o que era?. Depois de fazer a leitura da lista das personagens da peça na primeira página da obra/ ou de observar o guarda-roupa das barbies durante a representação (cada barbie é identificada na camisola com um pecado capital que corresponde à personalidade de uma determinada personagem da banda desenhada), poderá ficar ainda mais nítida a possibilidade de leitura dos temas a encontrar – O mundo da fantasia é pervertido pelo real? As “barbies” representam os vícios do mundo de plástico, da sociedade de consumo? Todavia, toda a estrutura do texto, pelo que foi sendo dito anteriormente, se alicerça em “terreno movediço”, em “teias” de uma moralidade aparente, onde a contradição e a ambiguidade circulam e se desenvolvem, para ludibriar a expectativa de um leitor/espectador que procure a moralidade fácil.

Quando a forma do texto, pelo que foi sendo dito, ela própria cria e anula nela própria os princípios que procura sustentar, temos como único fim a estética do prazer, a estética de uma era chamada de Pós–Moderna (que até no tempo de Perrault teve outra designação aparentada, o Barroco) nomeadamente aquela em que o seu símbolo máximo é a embalagem esvaziada do seu conteúdo, da sua mensagem a veicular. A sua finalidade última parece ser a do prazer do texto, o texto que pelo seu jogo incita o público à diversão, estabelecendo-se uma dependência mútua entre texto e público, tal como a entende Roland Barthes na sua obra Le Plaisir du Texte datada de 1973, quando afirma que o texto é um objecto “fétiche” e logo depois acrescenta “ce fétiche me désire”. Também Jean-François Lyotard, no artigo “Moralités postmodernes” publicado no volume 27, nº1, em 1994, na revista Études Littéraires, considera que o niilismo avança a par com o desenvolvimento. A cultura contemporânea apropria-se de todos os objectos, de todas as formas, mesmo de todas as paixões, representa-as para as fazer circular. Num ciclo sem fim. Dá-os ao divertimento de todos. Como se a jubilação estética dos povos fosse o seu fim. Mas “la mise en spectacle” não é um fim, é um efeito, e um meio para o sistema se desenvolver. A violência da aparição é neutralizada pelo colocar em circulação. O sistema faz esquecer o absoluto, e ele esquece esta omissão.

Pensamos ser importante referir que ao contrário de Séneca que escrevia as suas peças para serem lidas, esta peça foi escrita para ser representada, isto é, actualizada duplamente pelo leitor e pelo público.

Indo também na linha de cenografia de muito do teatro que se faz hoje, todo o cenário foi concebido em linhas minimalistas: caixotes amontoam-se para se poderem desmontar. Fomos buscar os tons fortes à Arte Pop: as três cores primárias amarelo, vermelho e azul contrastam com o rosa eléctrico envergado pelas sete barbies. Quanto ao guarda- roupa e acessórios, estes foram desenhados em traços barrocos, procurando-se o exagero das formas, nas saias das barbies e nos coletes dos dois elementos masculinos, mas também a profusão de adereços exagerados que caracterizam cada uma das barbies: máquina de calcular gigante para a barbie avareza, três telemóveis para a barbie Ira, leque, espanador, écharpe com penas, etc. Há também um único objecto avulso no cenário que repousa sobre uma mesa, uma garrafa solitária, que simboliza todo o bric-à-brac existente na casa, marca da sociedade que se poderá pretender ver criticada.


Para terminar, parece-nos importante fazer um pequeno comentário ao título, no intuito de poupar críticas. Não foi por acaso que se utilizou a língua inglesa, a par com a nossa língua mãe. Ela vem marcar o carácter dual, ambíguo, plural de todo o texto. Quanto ao recurso ao uso da letra minúscula, até nos nomes próprios, fizemo-lo quer por transgressão aos códigos de escrita, quer por homenagem a este género menor, o conto, que está na origem da peça em questão, género esse também ele marcado como espaço de transgressão por excelência, onde a fantasia tudo permite. Mas se quisermos trazer alguma leitura moralista a esta peça, o uso da letra minúscula servirá também como meio formal para se fazer a crítica de uma sociedade indiferenciada, onde tudo se reduz à categoria indistinta de objecto, onde os valores deixaram de fazer sentido e se misturam e onde o vencedor é o estupor.

Cristina Vieira


Ficha técnica:
Cristina Vieira [et al.]
O barba-azul : Ken kills the barbies? / Cristina Vieira. Lisboa : Apenas Livros, 2007. (Teatro no Cordel / dir. de Diana Nunes Coelho ; 5)